A imprensa adora uma tragédia

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Ok, ok, eu ia escrever um post amanhã bem bonitinho falando sobre a minha primeira semana no Brasil, mas infelizmente o tempinho livre  apareceu justo no dia que uma tragédia aconteceu, e como minha cabeça fica a mil e reclamar com os pais – que concordam comigo – não adianta muito nessas horas, eu venho pro blog estravazar. Achar que estou gritando aos 4 cantos da internet, o que parece acalmar meus ânimos nessas horas, por mais que os 4 cantos sejam os 9 leitores fiéis desse canto.

Eu comecei a escrever o desabafo no Twitter, mas me emp0lguei demais, então movi o discurso pra cá.

O assunto desagradável é o ataque da escola do Rio de Janeiro, claro.

Junto com o evento, que em si já é trágico e só imaginável hoje em dia porque acontece em algum lugar na Terra pelo menos uma vez por ano, vem o circo armado pela imprensa.

Especulações (a princípio falaram que era pai de aluno, mas tarde foi confirmado que era ex-aluno) , entrevistas com testemunhas, com curiosos, com policiais, com os pais das vítimas. Querendo falar como tudo aconteceu, como foram os tiros, aonde, que horas. Coletiva de imprensa do Governador do Estado, dizendo que o atirador era um animal psicopata, e entrevista até com técnico de futebol sobre o que ele acha do assunto (pois é, entre mudanças de canais para evitar o mau jornalismo sobre a notícia vi o Luxembrugo sendo perguntado o que ele achava da tragédia). E pode esperar, fotos das vítimas, história das vidas, pais desesperados na televisão, revistas e rádios. Agora a pergunta é, porque alguém gostaria de saber disso? Só aumenta ainda mais a dor que causa em população já frágil, e essa dor é em vão, porque não haverá ação para ajudar, para se evitar isso no futuro, e essa é a tristeza e frustração que infelzmente a imprensa coloca no mundo hoje. Aqui em casa, começou a baixaria e sensacionalismo, desligamos tudo, vai pro futebol, musiquinha e desenho animado.

Nessas horas minha opinião é que o papel da imprensa deveria ser o de informar os fatos que queremos saber. X vítimas na escola Y. Polícia entrou, atirador se matou (para sabermos se o causador foi pego ou se está à solta oferecendo risco à população). Vítimas socorridas no hospital Z (para quem fôr familiar ou quiser/puder ajudar). Motivos explicados na carta explicam que aconteceu por causa disso (isso talvez ajudasse a todos compreenderem o fato, e evitar assim, a revolta e amargura – nesse caso, a publicação da carta não ofereceu explicações) . Claro que serão detectado os motivos do ocorrido foram dois fatos: má assistência a doentes mentais (aqui se inclui viciados em drogas e álcool), e o acesso fácil a armamento. Daí discutir com o público e cobrar das autoridades uma atitude para que o fato não se ocorra mais. Cortar o mal pela raiz. Esse é o papel da imprensa, no meu ponto de vista.

Simples? Não é. Possível? Com certeza. Basta vontade – como apontou a minha mãe, dinheiro não é fator para a imprensa relatar o que deveria ser relatado. E a gente sabe que governantes fazem o que a pressão da imprensa pede. Mas a tendência é de achar que casos isolados não são importantes. E não tô falando só do Brasil não. Estados Unidos já teve tantos casos, perdemos as contas. Inglaterra (mesmo com acesso a armamento super-ultra contrado) teve um caso há anos atrás e no ano passado um senhor esquizofrênico matou várias pessoas na rua (mesmo após pedir ajuda aos médicos de que estava em depressão e ser ignorado). Na Alemanha também, há uns dois anos, ouve o mesmo evento em uma escola.

Antes de desligar o rádio, veio a notícia de bombas colocadas em outra escola do Rio de Janeiro. Mas “somente” 4 alunos se machucaram. Então como a tragédia é menor, fica com um destaque pequenininho. Mas quem colocou a bomba lá? Há risco de mais bombas? Não se sabe, e a única notinha ainda tem link pra notícia tragédia do momento, onde já não se pode fazer mais nada.

E é isso que a imprensa deveria estar discutindo. Não colocando mais amargura no coração do povo que já se entristece, se sente impotente e indignado diante de um evento dessa natureza.

Como doentes mentais deveriam estar sendo identificados, tratados e monitorados? Como o acesso a armas deve ser mais controlado? E a notícia da bomba e a investigação quanto a esse fato, como ficou?

Espero que as vítimas e seus familiares assim como professores e funcionários recebam uma assistência decente, agora é tratar os sintomas de uma doença que infelizmente não foi tratada, e tentar dar uma vida normal aos que ficaram para trás.

PS: O post bonitinho sobre o Brasil ainda virá em breve, mas hoje não deu pra ficar com o discurso enroscado na garganta.

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8 comments to A imprensa adora uma tragédia

  • Ana

    Infelizmente um fato muito triste o que aconteceu no Rio,porém concordo plenamente contigo, a imprensa adora uma tragédia com artigos pobres de conteúdo. Faz algum tempo que evito ver tv, até mesmo jornais passo de artigos do gênero, pois aqui na España é extamente igual e cansa. O que faço é fechar os olhos e fazer uma pequena oraçao por essas pessoas que tiveram um fim tao injusto e no sofrimento dos familiares.

    • L.

      Pois é, eu ando bem em dúvida se a melhor coisa é fechar o olho ou abrir e tentar abrir dos outros também :-? Será que só fechar é suficiente? Queria escrever um post sobre isso, quem sabe em breve? =D Que lugar da Espanha você está Ana? :)

  • Carol

    Apoiada Lelei… Foi triste demais!

  • Isso é assim em todo lugar né? Aqui também quando acontece esses lances, a imprensa baba em cima por meses, me dá desgosto.

    Mas sabe o quê? Os dois lados tem responsabilidade. A imprensa deveria usar a influência e alcance para educar e elevar o povo, mas também cada povo tem a imprensa que merece. Enquanto o povo achar isso legal e dar dinheiro por isso, é isso o que a imprensa vai mostrar para eles. Tragédia e reality shows.

    • L.

      Concordo sim Mauro, por isso que aqui em casa a gente fugia das notícias, mas ainda acho que existe algo de animal em não conseguir resistir às notícias que são relatadas dessa maneira e achar que todo o resto é boring.

      E não sei não, como existem vários níveis de intelecto por aí e governos que cortam educação e incentivo de se aprender a Pensar, acho que sempre vai haver população colando na onda do jornalismo barato. Será que o caminho não deveria ser o contrário não? :-?

  • Dia desses a historia vira filme. Concordo com o Mauro quando ele diz que cada povo tem a imprensa (o governo, etc) que merece.

    • L.

      Se fôsse um filme mostrando o que realmente aconteceu e como chegou até ali (tipo o Bowling for Columbine) até aceitaria, porque abriria os olhos de muita gente. E como falei pro Mauro: E não sei não, como existem vários níveis de intelecto por aí e governos que cortam educação e incentivo de se aprender a Pensar, acho que sempre vai haver população colando na onda do jornalismo barato. Será que o caminho não deveria ser o contrário não? :-?

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