Desculpem pelo assunto pesado de novo, escrevo hoje sobre o que aconteceu em Londres. Não tem como deixar entalado na garganta e sempre me ajuda a lidar com os sentimentos que vêm nessas horas…
Difícil achar uma tradução decente para a palavra riot. Riot aqui tem a conotação de arrastão, tumulto, revolta, tudo em uma palavra só. Em um dos artigos que li, na verdade eles diziam que nem riot foi, porque riot teria em si, uma definição de fundo politíco e argumentação, o que aqui não teve. Talvez tenha começado como uma riot, mas como terminou, ninguém sabe muito bem como colocar um nome. Vou chamar de tumulto, pra deixar mais fácil pra todo mundo, por agora.
Primeiro, a história de como aconteceu sob o meu ponto de vista, pra quem está no Brasil e ficou meio perdido com a bagunça que não foi bem explicada no jornal.
No dia 4 de Agosto (quinta-feira), um rapaz do Norte de Londres, do bairro de Tottenham foi morto por policiais. O que eu vi de notícias (assisto BBC News – notícias 24 horas – antes de dormir, pelas curtinhas do que está acontecendo pelo mundo) foi que um homem havia sido baleado pela polícia e estavam investigando. Na sexta, na hora do almoço – quando vemos as manchetes de novo – a notícia era de que ele havia atirado no policial, mas o IPCC (que é o órgão independente de investigação de ações da polícia) estava investigando o que realmente tinha acontecido.
No sábado, passei o dia fora. Na volta, quando paramos para jantar em um posto de serviços da estrada, vimos na televisão que estavam acontecendo alguns tumultos no bairro onde o rapaz foi morto. Carro de polícia pegando fogo, mas sem muitas informações sobre o que estava acontecendo. Chegamos em casa umas 2 horas depois, e o circo sensacionalista havia sido montado. Ninguém sabia muito bem o que estava acontecendo, como tinha começado e o que a polícia estava fazendo para contê-los. Resolvemos desligar a televisão, mas sei que ficaram a noite inteira reportando do local, colocando as imagens em loop, repetindo sempre as mesmas imagens de pessoas atirando pedras nos carros da polícia, de prédios pegando fogo.
No domingo, ligamos a TV pra ver o que estava acontecendo, mas até aí estava tudo meio tranqüilo. Até a hora de dormir de novo, quando vimos que haviam acontecido mais alguns tumultos. Na segunda-feira pela tarde o rádio começou a falar de tumultos acontecendo em maior escala em vários lugares de Londres. Ao assistirmos a TV de noite, vimos que estava fora de controle.
Na terça David Cameron chegou das suas férias, convocou a polícia, e o número de policiais nas ruas em Londres triplicou do dia para a noite, contando com carros-fortes e policiamento especial para tratar desse tipo de distúrbio. A note de terça foi tranqüila para Londres, mas Manchester, Birginham e Liverpool sofreram tumultos.
Não sei o número certo de pessoas que ficaram feridas no tumulto, mas confirmaram que 5 pessoas morreram.
E então vêm as perguntas. Que quero responder com as minhas respostas, meu ponto de vista, com meu conhecimento, com as horas que perdi lendo artigos de pessoas que não abusam de verborragia.
1) A polícia que matou o rapaz reagiu a ele atirando contra eles?
Não se sabe. Até agora a investigação confirmou que uma bala encravada no crachá do policial que foi envolvido no incidente não saiu da arma não-policial que foi encontrada na cena do crime. A investigação ainda está em andamento. Muitas perguntas precisam ser respondidas.
Pessoalmente, eu acho que os rapazes não atiraram. Que entraram em pânico e ameaçaram a polícia com a arma que tinham (se é que era deles mesmo) e a polícia entrou em pânico de volta e atirou para matar.
2) Os tumultos foram causados pela morte de Mark Duggan?
Não se sabe. As pessoas que estavam fazendo o tumulto era pouco concisas. Não tinham uma explicação dos motivos de estarem roubando lojas, colocando fogo em prédios, e fazendo bagunça. Cada um dava um motivo diferente, mas poucas vezes faziam sentido, e muitas vezes estavam embrigados por álcool.
Pessoalmente, digo que sim. Foi a única coisa que mudou do Sexta para Sábado. Depois que a poeira baixou um pouco, veio a notícia de que o tumulto começou no fim da vigília organizada pela família para protestar a morte do rapaz morto pela polícia. A vigília saiu de controle e algumas pessoas do bairro começaram o tumulto em uma revolta contra a polícia. Mas também acho que a televisão ao mostrar tudo ali, nú e crú e no loop repetitivo, instigou outros grupos do país a soltarem toda raiva e frustração contra o sistema. Ver que pessoas estavam roubando e destruindo saindo impunes, mostrou que se você quisesse, seria fácil ir pegar o seu pedacinho de mercadoria. A TV mostrou que polícia não ia te parar, se seus amigos iriam pra lá fazer tumulto também, que diferença iria fazer?
3) Porque a polícia não deu conta do recado?
Porque a polícia de rua aqui não é treinada para lidar com tumulto, e não só isso, ela não é autorizada a lidar com tumulto, eles não são armados, e normalmente só têm o bastão de borracha para conter violêncida em casos extremos e individuais de violência. Tem que ser a polícia treinada para tanto. Foi a primeira vez que aconteceram tumultos em vários lugares ao mesmo tempo. O número de policiais de tumulto (tipo Rota e Bope) foi pequeno para lidar com todos os tumultos. Foi um caso de como a TV estava mostrando onde os tumultos aconteceram, o pessoal causando o tumulto via na TV que poderia atacar outras áreas, e aproveitava a brecha.
Também teve o fator de que durante outros protestos durante o último ano a polícia foi muito criticada por usar força excessiva. Inquéritos foram armados, e a polícia ordenada a usar menos força da próxima vez. Quando chegou a hora do vamos ver, foi o que eles fizeram.
4) O Primeiro Ministro estava de férias, isso quer dizer que ele é folgado?
Não (mas jornais podem tentar te convencer do contrário). Não só o primeiro ministro como todos os políticos e a maioria da população tira férias no verão inglês. É quando as crianças saem de férias da escola, então é normal terem um tempo de descanso. O balanço entre a vida pessoal e trabalho aqui é protegido por leis européias, e isso é uma coisa importante na qualidade de vida de todos. O Primeiro Ministro é uma pessoa como qualquer outra, e para “funcionar” direito, precisa desligar de tempos em tempos. Ele e o Prefeito de Londres voltaram para Londres na terça-feira do tumulto. Todos os outros Membros do Parlamento (equivalente a deputados e senadores) foram convocados para uma audiência na quinta-feira depois do tumulto. Críticas são maiores pelo fato do Prefeito ter demorado mais para chegar, e quando todos estavam se unindo para limpar e resconstruir a cidade, eles não se uniram à população afetada.
O Primeiro Ministro não fez muita coisa na verdade voltando das férias. A polícia aqui é um órgão independente que tem liberdade de decidir ações conforme acharem necessário. David Cameron ter voltado foi literalmente, mais para inglês ver.
5) As pessoas que causaram o tumulto são pessoas simplesmente desocupadas, se aproveitando da falta de policiamento, ou crianças que os pais não tomam conta, querendo roubar coisas?
Aí está uma questão que cutuca a ferida de muita gente. Meu problema com essa questão é a palavra simplesmente. O que transpareceu durante esses acontecimentos é que nada é tão simples assim. E teve muito adulto na bagunça (até um brasileiro), e pessoas que queriam roubar comida, água e bebida acoólica.
5) Qual é a solução para isso não aconteça mais?
Não existe só uma solução. São várias. Que custam dinheiro, esforço, tempo. Sem entrar na questão histórica de partidos políticos, aqui está a minha lista de soluções, baseadanos ideais de Leleilândia:
- Para os governantes:
- Reforma do sistema de benefícios: Fazer com que o benefício seja merecido e não simplesmente oferecido. E benefícios merecidos seriam então melhores. As casas dadas pelo governo pra quem não pode pagar aluguel, seriam de melhor qualidade,ofereceriam condições mais humanas, e o serviço social apoiando o crescimento dos cidadões que necessitam dessa ajuda.
- Reforma do sistema de ensino: Criar mais colégios de ensino técnico e aprendizes.
Dar mais atenção para escolas que servem essas áreas:A maioria do pessoal envolvido (que claro teve suas exceções) vêm de sistemas educacionais precários. Saem da escola com o mínimo de alfabetizado (quando alfabetizados) e por isso também não conseguem se integrar à sociedade e procurar/conseguir emprego. O futuro para quem sai da escola nessas condições é escuro e sem muitas esperanças, o que traz frustração, raiva, inconformismo. Faça as contas.
Criar e manter os centros jovens/infantis:Existem muitas histórias de centros juvenis e infantis de sucesso que ajudam aos menos privilegiados (e provilegiados também, pra quem quiser) com atividades pós-escola. É excelente para aqueles que não podem pagar para terem atividades extra-curriculares e precisam passar o tempo fazendo algo e se sentindo úteis.
- Treinar a polícia: Não só para lidar melhor com tumultos, mas para evitá-los em primeiro lugar. Aprender as lições desses dias e rever as ações necessárias. Treiná-las para trabalharem com a comunidade problemática e não contra ela. Treinar oficiais que usam armas para saberem como lidar com o pânico e instintos de sobrevivência de mandeira melhor.
- Reforma do sistema social: Oferecer condições melhores para trabalhadores do serviço social. Para identificarem e trabalharem com pais que não têm condições (morais, físicas e/ou ecônomicas) de criarem seus filhos. Cortar o mal pela raiz, identificando isso cedo na vida das famílias, seria mais fácil de direcionar crianças para um caminho mais correto, e evitar adolescentes e adultos que trariam problemas para a sociedade no futuro.
- Impulsionar a criação de empregos: O corte de empregos, públicos ou não, é um grande fator nisso tudo, lembram de Gonzaguinha? “Um homem se humilha/ Se castram seu sonho/ Seu sonho é sua vida/ E vida é trabalho…/ E sem o seu trabalho
O homem não tem honra/ E sem a sua honra/ Se morre, se mata…“. Na minha opinão a criação de empregos vem da criação de indústrias, de empregos públicos (feito de maneira enxuta e eficiente) de mais felixibilidade dos sindicados, de mais educação no país. De facilidade para pequenas empresas lidarem com os bancos.
- Regularizar a propaganda e ânsia de ter que vender vender vender: Como eu falei, a maioria saiu roubando o que eles viam e queriam mas não têm condições (ou esperança de ter condições) de comprar. Pessoas “de bem” se aproveitaram e roubaram também. Pessoas com estudos e empregos, e sabiam o certo do errado. O que elas têm em comum com os muitos vieram de locais mais vulneráveis é querer e não poder comprar. É necessário colocar um freio nessa cultura onde ter é melhor como ser, como disse sabiamente, a Lolla.
- Para nós, o povo:
Esse é um ponto que dificilmente se vê por aí. Normalmente todo mundo é rapidinho em atacar a pedra, sem olhar para o próprio umbigo. Mas a sociedade e o povo tem culpa – e muita – no cartório. Então, o que podemos fazer para mudar o que está ao nosso redor e não deixar somente na mão do governo?- Não perpetuar a raiva direcionada aos que têm uma realidade diferente da nossa: Xingar, apelidar, falar (ou escrever) com tom de voz racista ou preconceituosa sobre os jovens, crianças e adultos envolvidos ou não nos tumultos, somente piora a situação que também é formada pelo fato de se sentirem excluídos do grupo de pessoas aunto-entituladas “boas”. Mais um fator para se juntarem aos grupos que entitulamos “maus” – alguém falou no programa de debate na televisão, com muita razão, quando não há proteção boa, proteção ruim toma conta. E assim gangs se formam que por sua vez acham o espaço para crescerem. E o ciclo assim vai continuando.
- Pesquisar mais sobre política e exercer nosso papel cívico: Saber o que cada partido fez, faz e quer fazer é essencial para exercermos nossos direitos de cidadãos. Sair pesquisando leva tempo, mas as recompensas são saber que na hora de votar – e tem que votar! – estamos escolhendo o melhor realmente para o que queremos, e não só ouvindo o barulho que a imprensa e jornais fazem durante a eleição e escândalos. Não só ouvindo o que celebridades, seus amigos ou o debate resultou na televisão. A escolha é nossa e temos que ser responsáveis por ela.
- Pesquisar mais sobre como é que o pessoal mais vulnerável que nós vive?: Saber as condições desse pessoal vai te fazer parar de julgá-los. É tão fácil do alto do nosso pedestal onde tivemos uma educação, pais moralmente corretos que nos ensinaram o certo do errado e nos suportaram nas horas de dor e de alegria, de amigos que nos aceitam, do quentinho da nossa casa, da segurança da polícia que nos protege ao invés de nos atacar, do emprego que paga as nossas contas e o que queremos comprar.
Tire seus dedos dos ouvidos, e use seu tempo para antes de atacar pedras, pesquisar o que está causando o problema, e como você pode ajudar.
- Perpetue idéias e ações que proporcionem o que você quer no mundo: Se você já tem uma idéia do que é certo e errado na sua concepção, perpetue-as. Aponte os seus amigos que não conseguem (ou não querem ver) ainda na direção correta. Pode haver uma discussão básica, assim como a que houve com a Cris no Twitter, a Lolla e a minha ex-chefe no Facebook, só tenha certeza de manter civilizado, colocando seus pontos através de fatos, mas não batendo de frente e deixando o emocional tomar conta. Nos três casos, chegamos em um acordo, aprendemos umas com as outras. Em um caso de uma menina que conheci uma vez em um casamento e se tornou amiga no Facebook, consegui fazer ela retirar o post dizendo que era “fácil os jovens conseguirem emprego, que só precisavam colocar um terno e aprender a falar sem gíria.” E nem precisei pedir para tirar, só com jeitinho disse que não era tão simples assim…
6) E por último, porque isso não muda?
Tem muito que envolve richas políticas, a impossibilidade de governos trabalhem juntos pelo bem da nação. Muito da sociedade que começa errado e é difícil de mudar assim rápido. São atitudes, culturas, crenças. Que são parte da personalidade dos indivíduos. Muito vem de novo do que o Mauro me falou, de que a raça humana é simplesmente muito grande para instigar o carinho e a preocupação pelo próximo em uma escala em que todos se ajudariam, na verdade.
Pode ser que esta lista mude conforme eu fôr lendo mais (ainda tenho muito mais artigos para ler!) e mais informações sobre o que aconteceu forem surgindo. Afinal, vocês sabem, sou a mestra em mudar e adaptar minhas opiniões.
Ia publicar a lista de artigos que li, mas seria enorme e não sei se vocês estariam interessados. Quem quiser pode me pedir e pode ser que eu publique aqui ou mande por e-mail.



















Sambaram comigo