Do povo para o povo – III

Esse é mais um dos posts-desabafo. Debati comigo mesma se deveria escrever ou não, mas tem me rondado, e não posso mais me calar. :-$ Como diria o defunto Rá-tim-bum, senta que lá vem história.  :>

Ou se não gosta de política, já dê a meia-volta e passe para o próximo blog da lista porque hoje é papo daqueles que, confesso, podem ser chatonildos!  :-B

Já escrevi sobre meu descontento com a democracia aqui e acolá, onde mencionei minha personalidade que descrevo como “socialista hipócrita” mas hoje venho escrever sobre o meu contento, o processo de escolha do novo líder do nosso – suposto – partido de esquerda, o “Labour Party” , literalmente o Partido Trabalhista.

Começando do começo, um pouquinho de história, nas eleições que aconteceram em Maio (ao invés de encher o blog com dados melhores explicados em outro lugar, clique aqui para ler como o processo no Reino Unido é diferente do Brasil e EUA – e lembrem-se, votar aqui é opcional), a direita, o “Conservative Party”, apelidado de Tories e literalmente o Partido Conservador, re-ganhou a maioria do Parlamento, depois de 4 anos de uma coalizão com o partido de meia-esquerda, os “Liberal Democrats”, literalmente os Democratas Liberais. Antes deles, o Labour Party governou por 12 anos, 3 mandatos consecutivos, sob o comando de Tony Blair. E antes dele, os Tories governaram por 18 anos, sob Margareth Tatcher por 3 mandatos consecutivos e  1 de John Major.

A eleição de Maio foi uma decepção para os seguidores do Labour Party, por dois motivos. O novo partido do clube, o “UKIP”, “United Kingdom Independance Party”, literalmente o Partido de Independência do Reino Unido, com visões nacionalistas extremistas, que por exemplo advoga o Reino Unido a sair da União Européia, e o “SNP” , “Scottish National Party”, literalmente o Partido Nacional Escocês, ganharam força e votos aonde o decepcionante LibDem – que mentiu ao prometer cortar os empréstimos a estudantes indo para a faculdade e na hora do vamos ver aceitaram aumentar o preço e os juros durante a coalizão – perderam seus votos.

 

LibDem nem dá a largada, Labour não consegue se levantar e Tories ganham por uma margem. Assim foi Maio de 2015!

A grande perda do partido ao SNP e a perda dos votos dos LibDems para a Direita (via votos ao UKIP e Tories) levou o líder que concorreu a Primeiro Ministro, Ed Milliband, a renunciar seu cargo, e a corrida para escolher uma nova ou um novo líder começou. Uma regra da época de Harrold Wilson (o último PM Labour antes de Tony Blair) foi trazida à tona novamente e significa que qualquer pessoa pode votar para o novo líder. Isso mesmo, sem politicagem, sem cabides de emprego, sem favores, sem chantagem, sem interesses. Tudo que você teria que fazer é se registrar como adepto ou afiliado do partido. Para ser adepto, basta pagar a taxa (existem cenários e preços diferentes) ou ser membro de um sindicato ou associação afiliada ao partido e pronto!  =D>

Com isso, a perda de Maio também fez 20 mil pessoas se inscreverem ao partido em um espaço de 3 dias  :O , entre eles, cansado de só reclamar do conforto do sofá, Mr. W!

Eu me segurei um pouco, sou divida entre Labour e o “Green Party”, literalmente o Partido Verde. Nas eleições de Maio acabei votando (aliás, James teve minha procuração para votar por mim, já que estava no Brasil :-D ) Labour para o Parlamento e Green Party para o “Local Council” – o equivalente à prefeitura brasileira. Explicando minha escolha, aqui se vota bastante taticamente, aquela velha mentalidade, que me lembro existia no Brasil antes de Lula, de que se votar nesse ou naquele partido você está tirando as chances de um partido maior e que você não concorda tanto mas em teoria tem a maioria em ganhar e seu voto iria para aqueles que você não quer que ganhe de jeito nenhum, e me deixei levar achando que meu voto faria a diferença para Labour. Não fez. 71% eleitores do condado votaram, e perdemos para os Tories, que mantiveram o lugar no parlamento que têm desde 2001, UKIP ficou em segundo, mas o Green Party ficou em terceiro! Com um aumento de 3.7% dos votos, se tivesse votado com a minha convicção, poderia ter ajudado a essa porcentagem ser um pouco mais alta!   :-q

No mês passado, Mr. W me levou aos “hustings” em Brighton, uma espécie de debate, em que todos candidatos respondem perguntas selecionadas, um de cada vez, e sem direito de discussão ou de réplica. Vimos os 4 candidatos a líder e os 6 candidatos a vice-líder. Saí de lá uma tagarela, voltamos o tempo todo conversando no carro, e eu super animada e apaixonada por Jeremy Corbyn   8->

O sistema de votos nessa eleição do líder do partido é por ordem de preferência. Escolhemos o primeiro, segundo, terceiro e quarto favoritos. O meu voto vai ser assim:

Como Jeremy pode ganhar as eleições para líder: Ele é contra Programa Anti-Nuclear Tridente, Austeridade, Intervenção Militar. Na ordem, Burhnam, Copper e Kendall ainda se pronunciam a favor ou em cima do muro dessas políticas.

  1. Jeremy Corbyn – Claro, meu presidente em Leleilândia :)>- , sim por que em Leleilândia não tem parlamento e não tem Rainha, todo mundo é votado do povo para o povo, um voto vale um voto direto, igual ao Brasil e diferente dos EUA e daqui, pelo menos até acharmos um sistema que funcione melhor! Voltando à lição de história, Jeremy foi o candidato escolhido para concorrer a líder pelos “back benchers” literalmente a turma do fundão, e como são chamados os membros do parlamento que não são e nunca foram ministros. Diz a imprensa que o escolheram como alguém somente para gerar debate, para mostrar que o partido se importa com as visões esquerdistas e socialistas percebidas como esquecidas pelo eleitorado. Jeremy é socialista de carteirinha, humanitário, pacifista e ativista. Por exemplo, no mês passado ele foi o único dos quatro candidatos que votaram contra a lei do “Bem-Estar” – que inclui corte de benefícios a quem tem mais de 2 filhos – os outros 3 candidatos se ausentaram e a lei passou ao próximo estágio que agora é esperada ser lavrada.
  2. Andy Burham – Porque ele promete colocar Jeremy como um de seus ministros (e eu espero que seja da habitação) se ele ganhar a eleição para liderança. E porque muitos de seus preceitos estão também de acordo com a minha opinião mas ainda o acho muito em cima do muro ou fraco em sua postura. Sua mãozinha de política em punho fechado e seu comportamento pessoalmente e com a imprensa não me passam convicção suficiente.
  3. Yvette Cooper – A mulher com maiores chances de ganhar é uma “Blairite”, como se diria no Português claro, uma cria de Blair, e que segue as mesmas políticas. Esquerda mas nem tanto, é como se fôsse um PSDB, ainda a favor da privatização e armamento e a participação do Reino Unido em Guerras. Não gosto dela usar feminismo como muleta em sues discursos. Cada vez que ela fala “É hora de uma mulher de esquerda ser líder” quero colocar o tampão de ouvido %-( . Então eu deveria votar para alguém que eu acho que é menos competente para me representar só porque ela é mulher? Diferente da líder do SNP, Nicola Sturgeon, que admiro e em quem votaria, Yvette se demonstrou com ideais sociais fracos e com os mesmos problemas de Ed Millband.
  4. Liz Kendall – Outra Blairite, mas mais de direita ainda, propõe continuar os cortes governamentais, algumas políticas ambientais que propõe contradizem com minha posição política. Sua maneira de comunicar como se fôssemos criancinhas de 3 anos me dá nos nervos ~x( e não consigo imaginar um governo com alguém como ela no poder.

    Blair ganhou 3 eleições seguidas mas deu um tiro no pé quando se juntou à guerra do Iraque contra a vontade popular, não ajustou o sistemas de benefícios e gastos parlamentares, e mudou a educação para pior. Seria um de seus seguidores a escolha que o partido quer?

Pronto, isso explicado, continue sentada ou sentado porque ainda tenho coisa pra escrever.  :>

Tudo estava indo bem, com uns políticos criticando a popularidade de Jeremy que começou a crescer depois que os sindicatos decidiram o apoiar e recomendar que seus associados votassem nele. Blair disse que aqueles votando em Jeremy com o coração deveriam fazer um transplante de coração. Uma membra do parlamento disse que foi retardada quando indicou Jeremy a ser candidato. O discurso de que Jeremy é inelegível, de que se ele fôr escolhido como líder Labour não vai ganhar uma eleição por 20 anos (hein? :-?? ) se tornou mais forte. As candidatas se tornaram papagaias toda vez que perguntam porque merecem ser líder, falam “Porque não adianta ter ideais, é preciso estar no poder”. Me deixa doente  X_X Preciso explicar porque?

Mr W era do mesmo ponto de vista, e queria votar em Andy como primeira opção. Em uma de nossas longas caminhadas (que invariavelmente termina falando em política) o convenci da história do Brasil, de como mesmo com PMDB e PSDB sendo as duas potências por décadas, mesmo com Globo e suas novelas querendo a direita e meia-direita no poder, a esquerda prevaleceu e ainda prevalece. Não perfeitamente, mas o mais perto que podemos ter até conseguirmos limpar a corrupção de nossos caminhos, daí Leleilândia aí vamos nós!  :-bd

De que como podemos esperar que um governo nos represente se votamos pensando em ganhar e não em nossas convicções? Se todos votam com medo de não ganhar, como acreditar que podemos mudar o mundo? Não assistiu FormiguinhaZ não?  /:)

A conclusão foi de que acho que Jeremy é elegível pelo mesmo motivo de Lula. Ele fala diretamente a todos, àqueles que perderam a esperança em votar por acharem de que não adianta nada. Sua mensagem é parecida com a de Obama, de dias melhores, em que todos podem se beneficiar por um governo mais igualitário. Ele acaba com os medos de que são imigrantes que causam problemas ao país, ele mostra de onde vai tirar o dinheiro para pagar as contas (exemplos: mais taxas à classe AA, fechar buracos na lei que permitem a sonegação de impostos, menos dinheiros cobrindo rombos de empresas que foram e estão sendo privatizadas, começará a criação de empregos em indústrias novamente). Como não concordar com esse homem?

Claro ele é inelegível, porque claro existem interesses da cúpula, do poder político e e instituições financeiras e em suas crenças, podem o parar, manchando suas convicções, sua vida e seus seguidores. E claro, seria ingênuo pensar que somos conseqüência da máquina. Pode ser que sou em que estou errada em minhas convicções, pode ser que existem mais pessoas lá fora felizes com o que está acontecendo no país atualmente, e porque não? Afinal Tories foram votados na maioria, e não há argumento contra as urnas e o que a maioria do povo quis.

Duas semanas depois Mr. W foi convencido por um artigo no jornal que explicava exatamente o que eu tive dificuldade de fazê-lo mudar de ideia – plantei a semente e o artigo foi a água que regou minha planta. E os que são a favor de Corbyn começaram a sair da toca, mais e mais pessoas se juntaram ao partido – principalmente depois do voto à lei do Bem Estar – já estamos em mais 65 Mil pessoas desde Maio, a maioria espera-se que seja para votar para Jeremy mas como não existe como fazer pesquisas, só saberemos quando o resultado sair dia 12 de Setembro (mal posso me conter! :-SS )

E pelo jeito todo mundo se irritou com aqueles que ofenderam a nós, que gostamos de Corbyn, seu suporte está maior do que nunca.

As campanhas para ser líder: Corbyn, e os outros

Então, hoje foi o último dia para quem quisesse se inscrever ao partido.

Sexta começamos a receber os formulários para votar, via e-mail e pelo correio. Tudo indo conforme o planejado? Não responda ainda! Hoje apareceu mais uma confusão negativista dos políticos do partido amedrontados pelo suposto monstro do socialismo, bichão de 7 cabeças que te pega enquanto você dorme.

Explico: Desde de que Jeremy começou a ganhar forças como um candidato viável, os Tories dizem ter se”infiltrado” no Labour. Se inscreveram, para votar em Jeremy e acreditam que assim iriam acabar com as chances de Labour ganhar a próxima eleição. Injusto, desleal e corruto? Sim, e como negar? E fato: Aproximadamente 1200 das 65000 novas inscrições foram identificas como possível infiltrações e negados acesso ao voto. Aquelas de jornalistas e políticos identificados como Tories.

Isso fez com que Labour entrasse em pânico e dissesse que vão cancelar as eleições. Até que se tenha uma maneira de saber somente quem é de esquerda pode votar e quem está ligado ao partido. Basicamente dizendo, adoramos a democracia, desde que você vote em quem queremos que você vote. Triste não? Assim como outros telefonando o rádio, escrevendo no Facebook, Twitter e seguidores da esquerda verdadeira, eu digo, venham Tories, e votem, votem sim no Jeremy! Deixe-o nos mostrar que se pode ser eleito como esquerdista. Melhor ainda, vamos nos livrar de rótulos! Deixemos de ser equerdistas, socialistas, direitistas! Seremos o partido que se mostra humanitário, que se importa com o futuro de nossas gerações! Esquerda, direita, quem se importa?

Ou que não seja eleito, mas que nos dê uma oposição humanitária e decente, colocando uma barreira quando Tories quiserem ignorar as classes mais baixas, deficientes físicos e mentais, minorias raciais, o acesso à educação, saúde, à lei, polícia, transporte, energia e tudo que chamamos de serviços públicos e cada vez mais se tornam particulares, com qualidade duvidosa e liberdade para cobrarem o quanto quiserem de nós.

Muito triste ver um partido quebrado, com medo de perder eleição mais do que com medo de perder seus ideais e o que representam.

Espero o resultado para saber se me junto e me torno afiliada de um Labour, que terá que se unir para ganhar meu dinheiro e esforço ou se me afilio ao Green Party e sei que é um partido pequeno agora, mas em ter esperança de sermos mais e melhores no futuro, e representar no que realmente acredito. Mesmo que aceite a perda em nome dos meus direitos.

Falando em direitos, deixo como uma pitada de pimenta,  uma música que me inspira e me dá arrepios, do grande Bob Marley, ídolo de meu maninho amado Mr. D!

Most people think
Great God will come from the skies
Take away everything
And make everybody feel high
But if you know what life is worth
You will look for yours on earth
And now you see the light
You stand up for your rights
A maioria das pessoas pensa
Que o grande Deus vai surgir dos céus
Levar tudo
E fazer todo mundo se sentir elevado
Mas se você sabe o quanto vale a vida
Vai cuidar de sua elevação aqui na Terra
E agora que você enxerga a luz
Lute pelos seus direitos
[…]

We sick an’ tired of-a your ism-skism game
Dyin’ ‘n’ goin’ to heaven in-a Jesus’ name, Lord
We know when we understand
Almighty God is a living man
You can fool some people sometimes
But you can’t fool all the people all the time
So now we see the light (What you gonna do?)
We gonna stand up for our rights! (Yeah, yeah, yeah!)

Estamos cheios e cansados do seu jogo de ismos
Morrendo e indo para o paraíso em nome de Jesus, Senhor
Nós sabemos e entendemos
O Deus poderoso é um homem vivo
Vocês podem enganar algumas pessoas algumas vezes
Mas não podem enganar a todos o tempo todo
Então agora que você enxerga a luz (O que você vai fazer?)
Vamos lutar por nossos direitos! (Sim, sim, sim!)

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