E vam’bora pro clichê?
O clichê do ano novo é um dos mais fortes de resistir, e mesmo sendo do contra, eu gosto da tradição de olhar pro ano que passou, e ver o que aconteceu. Mas sendo boa do contra que sou, adoro o fim de ano e detesto o ano novo.
Então, indo de contra do que mãe e pai me ensinaram, vou começar pelo o que eu gosto primeiro, revisando o que aconteceu. Acho que gosto mais por ser algo não me reserva mais nada, que eu lidei, que passou. Surpresas vieram e se foram, coisas boas, ruins, alegres e tristes aconteceram e pronto, mais um capítulo da vida que se fechou. E é gostoso ver como eu lidei com tudo isso.
Começando pela filosofia do ano passado, que lembrem-se substitui as comuns metas de ano novo, acho que tive sucesso. A idéia era evitar brigas, picuinhas, discussões. Muitas vezes durante 2012, respirei fundo, deixei de brigar e parei de procurar discussões. Confesso que me distanciar de certos lugares (virtuais e reais) ajudaram. Meio que estabeleci pessoas bacanas que quero ao meu redor, que me fazem bem, e as com quais havia um atrito, foram deixadas meio de lado.
Foi um ano com viagens gostosas novamente, pra Paris, pros Estados Unidos, Islândia, pra França e várias viagens de final de semana, não a passeio, mas preparando para o grande acontecimento de 2014 . Ainda mais gostoso, teve mãe e sobrinha vindo pra cá, e nós todos indo pra Euro Disney.
Dois mil e doze foi um ano que também viu bebês nascendo como lindo Ângelo da amiga Fernanda França, e Menino P., meu sobrinho caçulinha. Trazendo muita felicidade e esperança em nossas vidas! Foi um ano com uma surpresa deliciosa no meu aniversário, e uma surpresa tristonha para fechar o ano. A perda de Grandma B. sempre será uma macha no ano de 2012. Foi um ano corrido com o trabalho, passando por reformulações, com as aulas de piano e canto, indo encontrar garotas legais para uma jantinha jogando conversa fora, telefonando para a família linda e onde sobrou pouco tempo para espremer para o blog, twitter e facebook.
Essa falta de tempo me ajudou muito em minha auto-análise, me ajudou a separar (mais uma vez) quem é amigo, quem é troca de idéias (positivas ou negativas), quem é bacana de encontrar e bater papo, quem se importa comigo – e pra todos os pontos anteriores – vice e versa, como é que as outras pessoas me percebem. Isso fez muita diferença na minha sanidade mental, e me proporcionou melhor qualidade de vida.
Sempre difícil escrever mil maravilhas sobre um ano quando temos perdas, então fica o saldo de um ano que teve dias mais felizes que tristes, mais notícias boas que ruins, e não posso choramingar muito sobre ele não é mesmo?
E como boa do contra, eu não gosto de Ano Novo. Adoro quando fevereiro chega e o Ano novo não é mais novo. Quando é só o ano.
Ano Novo é sinal do desconhecido pra mim. Sei que como boa Pollyana, deveria adorar tudo de bom que o ano poderia trazer, mas eu sempre fui meio suspeita de anos novos. Tenho uma ansiedade de saber, o ano vai ser bom? Vai ser ruim? Alguém vai morrer? Ora, não quero que ninguém se vá nesse -ou em qualquer outro – ano! Vou ser promovida? Vou ser despedida? Vou ganhar no Euromillions? Vou ter muito stress? Vai ser tranqüilo? Meus amigos não vão embora? Vou perder alguma amizade? Vou conhecer alguém novo?
Nunca me lembro de ter sido animada com a promessa do ano novo. Por isso eu não tenho metas para o ano. Esse ano não quero nem ter uma idéia ou filosofia. Mas vou me concentrar nas idéias de 2011 o que me parece uma boa, a de ser a mudança que quero no mundo.
Se bater a preguiça pra ir ver o vídeo post-it lá, veja aqui!
Sempre achei que desejar feliz ano novo é meio vazio. Nenhum ano novo é completamente só feliz. Nem que seja algum mequetrefe que te feche no farol, sempre vai ter alguns momentos do ano em que a cobra vai fumar, e vão ter anos que vão ser apáticos, em que nada demais vai acontecer. Então eu desejo um ano forte pra você.
Forte, pra você ter muita saúde.
Forte pra você se proteger de qualquer violência e qualquer tragédia.
Forte pra se e quando você tiver momentos tristes, nervosos, ansiosos, negativos, você tenha força de saltar os obstáculos.
Forte mentalmente, e que tenha a sabedoria de reconhecer o que te faz feliz e aproveite esses momentos com muita alegria, sempre!
Estava aqui colocando a montanha de emails pra responder em ordem, quando me deparei tentando contar pra minha irmã o que eu fiz no final de semana. Ora ora, fui comemorar o 5 de Novembro! E claro, a pergunta inevitável seguiu: ”E o que seria o 5 de Novembro?”
Eu lembro ter explicado o que o 5 de Novembro significa aqui, mas acho que o post era da época do so-candy, que acabou voltando ao pó da internet. Então sempre bom explicar aqui de novo, e fica como referência pra quem se encontrar em Londres do mesmo jeito que eu há 10 anos atrás, não entendo o porque de tantos fogos de artíficios em pleno Novembro!
E quem melhor pra explicar do que a BBC? Tudo bem que ela não está em seus melhores momentos atualmente com acusações de que teria escondido o fato de que um de seus maiores apresentadores de TV Infantil dos anos 70 e 80 estivesse envolvido com pedofilia, e esse é assunto pra outro post, mas a BBC é a produtora de “Horrible Histories” (histórias horríveis), um programa de TV que conta fatos interessantes da história da Ingalterra e do mundo. É um programa voltado para crianças e adolescentes, mas que somos fãs aqui em casa. O programa utiliza o humor e a sátira para ensinar história, e eu acho que deveria ocupar espaço de horário nobre!
Então fica aqui a explicação do que aconteceu em 1605 com Guy Fawkes, são só dois minutos e muito melhor do que eu poderia ou teria tempo para contar!
E depois que isso aconteceu, começou-se a tradição de na noite de 5 de Novembro (e no final de semana anterior, se o 5 de Novembro cair em um dia de semana), de estourar fogos de artifício. Por estar frio e por que se o Parlamento tivesse explodido teria virado uma fogueira, pessoas e alguns shows de fogos, fazem grandes fogueiras, que em inglês é “bonfire”. Então para sempre, 5 de Novembro é conhecido como Bonfire Night, a noite das fogueiras. Não se sabe bem se por comemoração de que Guy falhou em seu plano, ou porque o plano existiu e foi uma forma de manter o protesto contra a família real*.
O plano de Guy Fawkes também foi a inspiração do filme V de Vendetta, um dos meus favoritos e que mencionei no blog durante a tragédia de Oslo e da escola do Rio de Janeiro.
Mas o que todo mundo sabe é Poema Remember Remember:
Remember remember the fifth of November
Gunpowder, treason and plot.
I see no reason why gunpowder, treason
Should ever be forgot..
Se lembre, se lembre
De de 5 de Novembro,
Pólvora, traição e armação
Eu não vejo motivo porque
Pólvora e Traição
Deveria ser esquecido!
Famílias e amigos se unem para ver fogos em espaços descampados, e depois se reunem em festas em casa, fazendo a fogueira e cozinhando pratos típicos dessa época, clique aqui pra ver alguns (em inglês).
E foi isso que fizemos no final de semana! Nos mandamos pra Southampton na casa dos pais do Mr. W e assistimos o show de fogos de artifício no campo atrás da escola onde ele cursou primário, comemos leitão à puruca com feijão branco, alho poró e erva-doce, com bolo Buttenburg de sobremesa. A mãe do James normalmente faz o Bonfire Cake que se parece com esse aqui, mas esse ano não deu tempo de fazer
*Eu, como socialista mequetrefe, comemoro o fato de que planejaram destruir a família real que não tolerava católicos! O que você comemoraria se morasse na Inglaterra?
Ok, tô devendo o relato da viagem pra Sorrento, mas enquanto não dá tempo, fica o relatório do livro que li (aliás praticamente engoli) durante os 5 dias de férias ouvindo o barulhinho do mar e fugindo do Sol
Primeiro oresumo de livrarias, pra saber sobre o que a história fala: Foi apenas um sonho (Richard Yates)conta a história de Frank e April Wheeler, um casal talentoso e jovem que, acredita ter toda a vida diante de si e que o sucesso há de chegar a qualquer momento. Mas, à medida que os anos passam, eles vão mergulhando num mundo de intrigas e frustrações, e só uma grande guinada poderá alterar seu destino. Em 2009, chegou às telas do cinema, com Leonardo DiCaprio e Kate Winslet como protagonistas.
Em que língua eu li? Na original, em inglês. O título original? Revolutionary Road (não gostei do título português, teria deixado como o nome da rua onde moravam mesmo).
A experiência da leitura: Na verdade o fato de que o livro virou um filme tão bem criticado, me deixou curiosa. Sempre gosto de ler os livros antes de ver o filme, e quando vi esse na baciada para comprar por £5 peguei sem nem pensar. A Katie é uma das minhas atrizes (e celebridades) favoritas, a Qris assistiu o filme e disse que era bom, não podia deixar passar. Mas confesso que saber como os personagens se parecem antes de ler o livro tira um pouco a graça e às vezes até me irritou. Ou acabava indo e voltando enquanto imaginava o que lia entre os personagens que criei na cabeça e os atores do filme (ainda bem que só sabia os principais).
Tirando isso, o livro começa devagar, até meio tedioso. Tive que me forçar a continuar, afinal um texto com tantas aclamações não poderia ser tão moroso. E valeu muito a pena. A história começou a me envolver, e as emoções que os personagens viviam mexiam comigo também. Apertos no coração, nó na garganta, e uma identificação de que qualquer um poderia estar na pele deles.
O livro é realmente MUITO bem escrito, os conflitos e revoltas dos anos 50 tão atuais ainda no segundo milênio, me impressionaram mas me deixaram meio deseperançosa, não aprendemos *nada* durante todo esse tempo? Mas conforme ia lendo o livro, também me peguei percebendo que muitas coisas mudaram, muitos preconceitos caíram e a esperança foi reinstaurada
Me identifiquei e identifiquei tantas outras pessoas ao meu redor com Frank e April e seus idealismos… Com essa vontade enorme de querer mudar o mundo. Com o amor tão grande que vai e volta, cresce e diminui e cresce… Com tanta gente que dá uma (ou vive anos planjando) reviravolta na vida em busca da realização dos sonhos e dos desejos que parecem ser maior que a gente e…
…Mas não posso ir muito a fundo, pra não estragar a história pra quem não leu ainda. Se vocês lerem e quiserem discutir, me avisem, abrirei um post em separado para termos uma conversa à parte.
E pra acabar, quantas estrelas leva o livro? 5 de 5, claro!
Claro! O livro é forte, com uma mensagem profunda e recomendo todos a lerem e tirarem suas conclusões.
P.S.: Coloquei uma listinha dos próximos relatórios que vocês devem ver aqui na minha fila de posts com os livros que li e ainda não comentei. O livro que está na beira da cama agora? O símbolo perdido (Dan Brown). Tô gostando, mas está me enjoando um pouco, mas uma vez que se começa Dan Brown, é díficil de parar sem terminar hein?
Então a polêmica da vez na semana passada foi o escandâlo de que a Zara (e mais de 20 outras grifes) usam mão de obra escrava para produzirem suas roupas. Que na minha timeline começou com o Twit da Helô Righetto.
Confesso que tal fato não me deixou perplexa. Essa história, pra quem mora na Inglaterra e acompanha as notícias, já é velha.
Dessa vez, o vexame foi flagrado no Brasil. Em 2009, a Zara e a H&M já eram denunciadas por utilizarem mão de obra escrava no Uzbesquistão.
Li uma vez na revista do avião, que a Diesel e a GAP usavam mão de obra infantil no Brasil.
Tem muito pouco que podemos fazer para impedir essa natureza da indústria. Eu faço o meu pouquinho, e lá vai a relação que eu tenho com mundo da moda:
Começou desde pequena, marca não pesa em nada pra mim
Meus pais sempre me ensinaram que o importante é quem você é, e não o que você veste ou o que você tem. Estudei em escola particular durante toda a minha infância, e não se engane de achar que não choramos por não termos tênis New Balance, camiseta Pakalolo e calça jeans M. Officer. Lembro de muitos escândalos mas meus pais sempre nos ensinaram com muito amor que o dinheiro gasto com as grifes poderiam ser gastos com outras coisas, e que no fim das contas, estávamos crescendo mesmo, o tênis, a camiseta e a calça jeans seriam perdidos antes de serem gastos. Que a qualidade do que compravam pra gente era suficiente para durar aquele ano, e na verdade que podíamos ficar lindões mesmo não carregando o peso da etiqueta. Com o tempo fui crescendo e o fato de não ter nada de grife só me ensinou que meus pais – mais uma vez – estavam certo. Sempre achei um jeitinho de achar o que precisava de maneira mais em conta, e aprendi o valor do dinheiro, no que valia a pena gastar ou não, qual era o valor do mesmo item em outras lojas?
Confesso, que a primeira coisa que comprei com meu salário de estagiária, foi um Nike. Não podia comprar só com o salário, mas meus pais, em uma forma de reconhecer meus esforços, pagaram por metade. Usei com muito gosto o tênis, e fiz durar até rasgar, mas enjoei muito antes do tênis acabar e aprendi mais uma lição.
Se compro barato, quando chega a hora de desfazer, não contrbuí para o lucro da marca
A lição com o tênis foi a de que a moda comprada normalmente me enjoa antes de chegar ao máximo que eu posso usar dela. O tênis durou um ano e meio mais ou menos, mas muito antes disso eu já estava com cosquinha de comprar outro. Mas como suava pelo dinheiro do estágio (cujo metade do salário ia direto para a poupança assim que caía na conta) me segurava para não comprar outro. E fiquei com o coitado até não ter mais como usar, assim como fazia com as roupas de trabalho. Dali pra frente, comprava blusinhas e roupas “temporárias” na Miroa, na Fancy, na Barred’s. Aqui eu compro na Matalan e Primark. Mas sei que a duração dessas roupas é curta, mas o suficiente para desfilar e me aprovietar nelas, sem ir à bancarrota, e então aprendi mais uma lição.
Pagar um pouco mais vale a pena, se é para durar
A lição com as roupas de trabalho, foi que quando comecei a trabalhar na AT&T (vulga Lucent, vulga Avaya) exigiram que eu começasse utilizar roupas mais formais. Peguei a mãe e fomos juntas escolher o que era apropriado e o que valia a pena pagar. Minha mãe sempre foi “O” exemplo de mulher elegante, linda e charmosa, quem melhor para ir comigo? Resolvemos fazer a rapa na Luigi Bertolli. As roupas eram clássicas, de ótima qualidade e por isso significava que eu poderia passar um ano usando-as sem precisar gastar dinheiro de novo. O famoso barato que sai caro, quando é para roupas de trabalho, não colam comigo. Aqui, compro na Next e New Look quando preciso de coisas mais duradouras, mas mesmo assim, prefiro esperar quando tem promoção, assim gasto menos ainda. Investir o dinheiro em qualidade sem pagar mais pela etiqueta, me mostrou que não preciso comprar roupas todo mês, toda semana, todo dia. Mas quando preciso. E mais uma lição.
Comprar quando é preciso
Só compro quando preciso. Quando as roupas mais baratinhas não estão mais em condições de usar que eu ainda me ache bonita com elas, vão pra doação. Algumas vezes até penso que elas precisem ir para a reciclagem de retalhos aqui de tão usadas que foram. Muitas vezes levo pro Brasil e junto com a minha mãe, as reformamos. Recorta e costura daqui, cola um brilhinho ali. A época que mais comprei roupa foi quando perdi 10 quilos e as roupas antigas estavam todas grandes. Na empolgação da perda de peso, comprei comprei comprei. A casa tinha espaço pra guardar e não me desfiz das roupas antigas, vi o estrago na mudança. Quando quase 20 sacos de 20L. saíram de casa com roupas que já não queria mais. No meio tempo engordei de novo, e precisei comprar algumas peças novas. Compro conforme vou precisando para novas ocasiões, vou comprando, mas tenho pego somente as baratinhas, pelo menos até perder perder o peso de novo, então as roupas que preciso agora são da categoria “temporária” e serão das baratinhas, já que daqui uns meses quero ir comprar as definitivas do novo corpitcho e daí sim renovar as roupas para um armário mais duradouro.
E o boicote?
A primeira reação das amigas fashion é a de boicotar as marcas que forem provadas fazerem parte do cartel da escravidão.
Meu boicote é antigo. Meu boicote é o mesmo dos meus pais. Que me ensinaram que a indústria da moda é tentadora, e que precisamos vencer a pressão da importância “do ter, antes de ser”. De entender, que se alguém não é nosso amigo porque não nos vestimos com roupa da moda ou da marca, quem não merece ser nossos amigos são essas pessoas.
O boicote é uma forma de protesto. Mas para não sairmos pelados, como a Helô Righetto sugeriu sendo a única solução possível, uso as minhas lições aprendidas, e evito até entrar em lojas de grifes, contra o abuso em nome do lucro. Fazer uma roupa por 20 centavos e vender por £10 (o que a Primark e Matalan cobrariam) é abuso. Vender por £20 – o que pagaria nas lojas mais médias daqui (Next, New Look) é abuso – mas normalmente espero a promoção chegar e o preço cair até £10 ou mais barato, e assim evitar comprar muitas calças Primark. Vender por £60 (o que seria o preço da Zara e GAP) é pior ainda, e normalmente mesmo as promoções não são preços exorbitantemente ótimos, e os tamanhos que sobram não me servem Não sou contra o lucro, sou contra o lucro abusivo. Em Leleilândia, que não é socialista porque não é obrigatório mas voluntário, o lucro é dividido pelo bem daqueles ao redor de nós, e não em nome de sua exploração. Exploração na linha de produção, exploração de quem sua a camisa para comprar algo que quer.
Se o boicote não vai funcionar, o que pode funcionar ?
Eu acho que o boicote funciona sim. Mas o boicote a longo prazo, consistente e consciente. Escrever para as marcas que você gosta (e faz questão de usar) explicando que está parando de comprar lá por causa da posição social da empresa. Ficar na cola da imprensa para dar seguimento às investigações reportadas anteriormente. Fazer sua voz valer no Twitter e blogs e onde mais puder ser ouvida.
Simplesmente e brevemente boicotar, não ajuda. Pensem comigo. Zara(em ’09) e GAP(em ’07) e Diesel(em ’08) já foram escancaradas no passado como marcas que utilizam mão-de-obra escrava. No passado também disseram que iriam averigüar os fatos e certificar que o problema não acontecesse mais. Anos depois, Zara resolveu mudar as operações escravas do Uzbesquitão para o mercado escravo no Brasil e a GAP caiu de novo na tática do mercado escravo da Índia – denunciado em Agosto do ano passado. A impressão é que essas grifes deixam a poeira baixar, fazem um escarcéu de que vão olhar no problema, vão resolver, bladidádá e nada é feito, volta e meia sai um escândalo de trabalho escravo (e muitas vezes infantil) sendo utilizado.
Surpreendentemente a única empresa que realmente sempre impôs condições de trabalho e desmentiu relatórios falsos de trabalho escravo (a BBC teve que pedir desculpa pelo programa mentiroso) até hoje foi a Primark, a mais popular e baratinha de todas. É a única da indústria – que eu sei – a colocar seus valores éticos no site da loja pra quem quiser ver.
A New Look e a Diesel publicam quais são as caridades para as quais elas doam parte de seus lucros, um ponto positivo no meu caderninho (mesmo que eu não compre Diesel porque o preço ainda é impraticável para o que oferecem).
Algumas têm um blablablá enorme no meio de letrinhas confusas e muitas vezes não vêm a publico quais caridades elas ajudam, qual são as ações que fazem mesmo para beneficiar seus empregados e costureiros?
Se alguém achar mais alguma, me avise e colocarei com prazer aqui no blog e tirarei da minha lista do boicote.
Fazer pressão às marcas para abrirem as portas de suas fábricas, além do boicote de não comprar mais lá até conseguirem colocar ordem na casa, é a melhor ação.
Elas não poderem culpar o clima ecônomico por quererem fechar suas lojas e fábricas (que pelo sim pelo não é a única fonte de renda dessas famílias) quando pararem de vender e suas ações despencarem, é o que as fariam repensarem suas responsabilidades sociais, e acompanharem mais de perto sua linha de produção.
Escrever para os políticos exigindo melhores condições de trabalho serem impostas, é o que o povo todo no mundo inteiro (para evitar ações como as da Zara que mudou de um país para o outro) deveria fazer também. Foi assim que nos livramos de condições desumanas na Inglaterra (com a união dos sindicatos e trabalhadores) e muitos países que hoje em dia prezam pelas suas condições de trabalho. Vejam bem, isso ainda não evita que existam trabalhos escravos e explorativos no Reino Unido. Mas muito MUITO mesmo foi banido no passado.
Então eu nunca compro nada de marca?
Depende o que você chama de marca. Posso dizer que 99.9% das minhas roupas e sapatos não são de grife. E os 0.01% que são, foram presentes. Tenho um casaco da Zara que ganhei de presente, uma bolsa da Radley que ganhei de presente. Foram presentes de pessoas que gostam de mim e tinham a melhor das intenções em seus corações. Aceitei com carinho, e os usarei até não dar mais, fazendo jus ao dinheiro que gastaram
E as pessoas que justificam as compras nessas lojas?
De novo, eu entendo que é o mundo em que vivemos. Eu não condeno os amigos e conhecidos que sucumbem à tentação das marcas. Eu não entendo a atração pela mudança de estações, pela renovação do armário a cada 3 meses, pelo julgamento de acordo com o que você veste. Não entendo o porque pagar mais pelo que você poderia ter por menos. Não tenho o hobby de ir fazer compras.Já tentei me entrosar em conversas da moda, mas não rola. Então não tenho como condená-las. Só poderia ter o direito de levantar um dedo se a minha criação tivesse sido diferente, se minha personalidade fôsse diferente.
Só posso tentar explicar porque é que penso e ajo diferente.
E abrir meus ouvidos pra quem quiser me convencer do contrário
Desculpem pelo assunto pesado de novo, escrevo hoje sobre o que aconteceu em Londres. Não tem como deixar entalado na garganta e sempre me ajuda a lidar com os sentimentos que vêm nessas horas…
Difícil achar uma tradução decente para a palavra riot. Riot aqui tem a conotação de arrastão, tumulto, revolta, tudo em uma palavra só. Em um dos artigos que li, na verdade eles diziam que nem riot foi, porque riot teria em si, uma definição de fundo politíco e argumentação, o que aqui não teve. Talvez tenha começado como uma riot, mas como terminou, ninguém sabe muito bem como colocar um nome. Vou chamar de tumulto, pra deixar mais fácil pra todo mundo, por agora.
Primeiro, a história de como aconteceu sob o meu ponto de vista, pra quem está no Brasil e ficou meio perdido com a bagunça que não foi bem explicada no jornal.
No dia 4 de Agosto (quinta-feira), um rapaz do Norte de Londres, do bairro de Tottenham foi morto por policiais. O que eu vi de notícias (assisto BBC News – notícias 24 horas – antes de dormir, pelas curtinhas do que está acontecendo pelo mundo) foi que um homem havia sido baleado pela polícia e estavam investigando. Na sexta, na hora do almoço – quando vemos as manchetes de novo – a notícia era de que ele havia atirado no policial, mas o IPCC (que é o órgão independente de investigação de ações da polícia) estava investigando o que realmente tinha acontecido.
No sábado, passei o dia fora. Na volta, quando paramos para jantar em um posto de serviços da estrada, vimos na televisão que estavam acontecendo alguns tumultos no bairro onde o rapaz foi morto. Carro de polícia pegando fogo, mas sem muitas informações sobre o que estava acontecendo. Chegamos em casa umas 2 horas depois, e o circo sensacionalista havia sido montado. Ninguém sabia muito bem o que estava acontecendo, como tinha começado e o que a polícia estava fazendo para contê-los. Resolvemos desligar a televisão, mas sei que ficaram a noite inteira reportando do local, colocando as imagens em loop, repetindo sempre as mesmas imagens de pessoas atirando pedras nos carros da polícia, de prédios pegando fogo.
No domingo, ligamos a TV pra ver o que estava acontecendo, mas até aí estava tudo meio tranqüilo. Até a hora de dormir de novo, quando vimos que haviam acontecido mais alguns tumultos. Na segunda-feira pela tarde o rádio começou a falar de tumultos acontecendo em maior escala em vários lugares de Londres. Ao assistirmos a TV de noite, vimos que estava fora de controle.
Na terça David Cameron chegou das suas férias, convocou a polícia, e o número de policiais nas ruas em Londres triplicou do dia para a noite, contando com carros-fortes e policiamento especial para tratar desse tipo de distúrbio. A note de terça foi tranqüila para Londres, mas Manchester, Birginham e Liverpool sofreram tumultos.
Não sei o número certo de pessoas que ficaram feridas no tumulto, mas confirmaram que 5 pessoas morreram.
E então vêm as perguntas. Que quero responder com as minhas respostas, meu ponto de vista, com meu conhecimento, com as horas que perdi lendo artigos de pessoas que não abusam de verborragia.
1) A polícia que matou o rapaz reagiu a ele atirando contra eles?
Não se sabe. Até agora a investigação confirmou que uma bala encravada no crachá do policial que foi envolvido no incidente não saiu da arma não-policial que foi encontrada na cena do crime. A investigação ainda está em andamento. Muitas perguntas precisam ser respondidas. Pessoalmente, eu acho que os rapazes não atiraram. Que entraram em pânico e ameaçaram a polícia com a arma que tinham (se é que era deles mesmo) e a polícia entrou em pânico de volta e atirou para matar.
2) Os tumultos foram causados pela morte de Mark Duggan?
Não se sabe. As pessoas que estavam fazendo o tumulto era pouco concisas. Não tinham uma explicação dos motivos de estarem roubando lojas, colocando fogo em prédios, e fazendo bagunça. Cada um dava um motivo diferente, mas poucas vezes faziam sentido, e muitas vezes estavam embrigados por álcool. Pessoalmente, digo que sim. Foi a única coisa que mudou do Sexta para Sábado. Depois que a poeira baixou um pouco, veio a notícia de que o tumulto começou no fim da vigília organizada pela família para protestar a morte do rapaz morto pela polícia. A vigília saiu de controle e algumas pessoas do bairro começaram o tumulto em uma revolta contra a polícia. Mas também acho que a televisão ao mostrar tudo ali, nú e crú e no loop repetitivo, instigou outros grupos do país a soltarem toda raiva e frustração contra o sistema. Ver que pessoas estavam roubando e destruindo saindo impunes, mostrou que se você quisesse, seria fácil ir pegar o seu pedacinho de mercadoria. A TV mostrou que polícia não ia te parar, se seus amigos iriam pra lá fazer tumulto também, que diferença iria fazer?
3) Porque a polícia não deu conta do recado?
Porque a polícia de rua aqui não é treinada para lidar com tumulto, e não só isso, ela não é autorizada a lidar com tumulto, eles não são armados, e normalmente só têm o bastão de borracha para conter violêncida em casos extremos e individuais de violência. Tem que ser a polícia treinada para tanto. Foi a primeira vez que aconteceram tumultos em vários lugares ao mesmo tempo. O número de policiais de tumulto (tipo Rota e Bope) foi pequeno para lidar com todos os tumultos. Foi um caso de como a TV estava mostrando onde os tumultos aconteceram, o pessoal causando o tumulto via na TV que poderia atacar outras áreas, e aproveitava a brecha.
Também teve o fator de que durante outros protestos durante o último ano a polícia foi muito criticada por usar força excessiva. Inquéritos foram armados, e a polícia ordenada a usar menos força da próxima vez. Quando chegou a hora do vamos ver, foi o que eles fizeram.
4) O Primeiro Ministro estava de férias, isso quer dizer que ele é folgado?
Não (mas jornais podem tentar te convencer do contrário). Não só o primeiro ministro como todos os políticos e a maioria da população tira férias no verão inglês. É quando as crianças saem de férias da escola, então é normal terem um tempo de descanso. O balanço entre a vida pessoal e trabalho aqui é protegido por leis européias, e isso é uma coisa importante na qualidade de vida de todos. O Primeiro Ministro é uma pessoa como qualquer outra, e para “funcionar” direito, precisa desligar de tempos em tempos. Ele e o Prefeito de Londres voltaram para Londres na terça-feira do tumulto. Todos os outros Membros do Parlamento (equivalente a deputados e senadores) foram convocados para uma audiência na quinta-feira depois do tumulto. Críticas são maiores pelo fato do Prefeito ter demorado mais para chegar, e quando todos estavam se unindo para limpar e resconstruir a cidade, eles não se uniram à população afetada.
O Primeiro Ministro não fez muita coisa na verdade voltando das férias. A polícia aqui é um órgão independente que tem liberdade de decidir ações conforme acharem necessário. David Cameron ter voltado foi literalmente, mais para inglês ver.
5) As pessoas que causaram o tumulto são pessoas simplesmente desocupadas, se aproveitando da falta de policiamento, ou crianças que os pais não tomam conta, querendo roubar coisas?
Aí está uma questão que cutuca a ferida de muita gente. Meu problema com essa questão é a palavra simplesmente. O que transpareceu durante esses acontecimentos é que nada é tão simples assim. E teve muito adulto na bagunça (até um brasileiro), e pessoas que queriam roubar comida, água e bebida acoólica.
5) Qual é a solução para isso não aconteça mais?
Não existe só uma solução. São várias. Que custam dinheiro, esforço, tempo. Sem entrar na questão histórica de partidos políticos, aqui está a minha lista de soluções, baseadanos ideais de Leleilândia:
Para os governantes:
Reforma do sistema de benefícios: Fazer com que o benefício seja merecido e não simplesmente oferecido. E benefícios merecidos seriam então melhores. As casas dadas pelo governo pra quem não pode pagar aluguel, seriam de melhor qualidade,ofereceriam condições mais humanas, e o serviço social apoiando o crescimento dos cidadões que necessitam dessa ajuda.
Reforma do sistema de ensino: Criar mais colégios de ensino técnico e aprendizes. Dar mais atenção para escolas que servem essas áreas:A maioria do pessoal envolvido (que claro teve suas exceções) vêm de sistemas educacionais precários. Saem da escola com o mínimo de alfabetizado (quando alfabetizados) e por isso também não conseguem se integrar à sociedade e procurar/conseguir emprego. O futuro para quem sai da escola nessas condições é escuro e sem muitas esperanças, o que traz frustração, raiva, inconformismo. Faça as contas. Criar e manter os centros jovens/infantis:Existem muitas histórias de centros juvenis e infantis de sucesso que ajudam aos menos privilegiados (e provilegiados também, pra quem quiser) com atividades pós-escola. É excelente para aqueles que não podem pagar para terem atividades extra-curriculares e precisam passar o tempo fazendo algo e se sentindo úteis.
Treinar a polícia: Não só para lidar melhor com tumultos, mas para evitá-los em primeiro lugar. Aprender as lições desses dias e rever as ações necessárias. Treiná-las para trabalharem com a comunidade problemática e não contra ela. Treinar oficiais que usam armas para saberem como lidar com o pânico e instintos de sobrevivência de mandeira melhor.
Reforma do sistema social: Oferecer condições melhores para trabalhadores do serviço social. Para identificarem e trabalharem com pais que não têm condições (morais, físicas e/ou ecônomicas) de criarem seus filhos. Cortar o mal pela raiz, identificando isso cedo na vida das famílias, seria mais fácil de direcionar crianças para um caminho mais correto, e evitar adolescentes e adultos que trariam problemas para a sociedade no futuro.
Impulsionar a criação de empregos: O corte de empregos, públicos ou não, é um grande fator nisso tudo, lembram de Gonzaguinha? “Um homem se humilha/ Se castram seu sonho/ Seu sonho é sua vida/ E vida é trabalho…/ E sem o seu trabalho
O homem não tem honra/ E sem a sua honra/ Se morre, se mata…“. Na minha opinão a criação de empregos vem da criação de indústrias, de empregos públicos (feito de maneira enxuta e eficiente) de mais felixibilidade dos sindicados, de mais educação no país. De facilidade para pequenas empresas lidarem com os bancos.
Regularizar a propaganda e ânsia de ter que vender vender vender: Como eu falei, a maioria saiu roubando o que eles viam e queriam mas não têm condições (ou esperança de ter condições) de comprar. Pessoas “de bem” se aproveitaram e roubaram também. Pessoas com estudos e empregos, e sabiam o certo do errado. O que elas têm em comum com os muitos vieram de locais mais vulneráveis é querer e não poder comprar. É necessário colocar um freio nessa cultura onde ter é melhor como ser, como disse sabiamente, a Lolla.
Para nós, o povo:
Esse é um ponto que dificilmente se vê por aí. Normalmente todo mundo é rapidinho em atacar a pedra, sem olhar para o próprio umbigo. Mas a sociedade e o povo tem culpa – e muita – no cartório. Então, o que podemos fazer para mudar o que está ao nosso redor e não deixar somente na mão do governo?
Não perpetuar a raiva direcionada aos que têm uma realidade diferente da nossa: Xingar, apelidar, falar (ou escrever) com tom de voz racista ou preconceituosa sobre os jovens, crianças e adultos envolvidos ou não nos tumultos, somente piora a situação que também é formada pelo fato de se sentirem excluídos do grupo de pessoas aunto-entituladas “boas”. Mais um fator para se juntarem aos grupos que entitulamos “maus” – alguém falou no programa de debate na televisão, com muita razão, quando não há proteção boa, proteção ruim toma conta. E assim gangs se formam que por sua vez acham o espaço para crescerem. E o ciclo assim vai continuando.
Pesquisar mais sobre política e exercer nosso papel cívico: Saber o que cada partido fez, faz e quer fazer é essencial para exercermos nossos direitos de cidadãos. Sair pesquisando leva tempo, mas as recompensas são saber que na hora de votar – e tem que votar! – estamos escolhendo o melhor realmente para o que queremos, e não só ouvindo o barulho que a imprensa e jornais fazem durante a eleição e escândalos. Não só ouvindo o que celebridades, seus amigos ou o debate resultou na televisão. A escolha é nossa e temos que ser responsáveis por ela.
Pesquisar mais sobre como é que o pessoal mais vulnerável que nós vive?: Saber as condições desse pessoal vai te fazer parar de julgá-los. É tão fácil do alto do nosso pedestal onde tivemos uma educação, pais moralmente corretos que nos ensinaram o certo do errado e nos suportaram nas horas de dor e de alegria, de amigos que nos aceitam, do quentinho da nossa casa, da segurança da polícia que nos protege ao invés de nos atacar, do emprego que paga as nossas contas e o que queremos comprar. Tire seus dedos dos ouvidos, e use seu tempo para antes de atacar pedras, pesquisar o que está causando o problema, e como você pode ajudar.
Perpetue idéias e ações que proporcionem o que você quer no mundo: Se você já tem uma idéia do que é certo e errado na sua concepção, perpetue-as. Aponte os seus amigos que não conseguem (ou não querem ver) ainda na direção correta. Pode haver uma discussão básica, assim como a que houve com a Cris no Twitter, a Lolla e a minha ex-chefe no Facebook, só tenha certeza de manter civilizado, colocando seus pontos através de fatos, mas não batendo de frente e deixando o emocional tomar conta. Nos três casos, chegamos em um acordo, aprendemos umas com as outras. Em um caso de uma menina que conheci uma vez em um casamento e se tornou amiga no Facebook, consegui fazer ela retirar o post dizendo que era “fácil os jovens conseguirem emprego, que só precisavam colocar um terno e aprender a falar sem gíria.” E nem precisei pedir para tirar, só com jeitinho disse que não era tão simples assim…
6) E por último, porque isso não muda?
Em resumo é mais ou menos como um cartunista colocou no The Independent (nosso jornal favorito aqui):
Os sintomas, as causas, a solução
Tem muito que envolve richas políticas, a impossibilidade de governos trabalhem juntos pelo bem da nação. Muito da sociedade que começa errado e é difícil de mudar assim rápido. São atitudes, culturas, crenças. Que são parte da personalidade dos indivíduos. Muito vem de novo do que o Mauro me falou, de que a raça humana é simplesmente muito grande para instigar o carinho e a preocupação pelo próximo em uma escala em que todos se ajudariam, na verdade.
Pode ser que esta lista mude conforme eu fôr lendo mais (ainda tenho muito mais artigos para ler!) e mais informações sobre o que aconteceu forem surgindo. Afinal, vocês sabem, sou a mestra em mudar e adaptar minhas opiniões.
Ia publicar a lista de artigos que li, mas seria enorme e não sei se vocês estariam interessados.Quem quiser pode me pedir e pode ser que eu publique aqui ou mande por e-mail.
Não tem como. Tentei ignorar o fato no blog – como muitos companheiros de blog fizeram – mas minha cabeça e suas caraminholas ganham a luta. E esse “blog é sobre nada” (roubando a terminologia de Helô e Marina) mas ao mesmo tempo é sobre tudo que se passa nessa mente criada por pais de direita, irmã e namorado de esquerda, e que tenta justificar as coisas difíceis de entender para quem teve um passado fácil de viver. Esse blog é uma das válvulas de escape para eu não acabar “fundindo a cuca” como diziam meus pais quando eu queria ficar estudando por muito tempo (sim, sou CDF e daí ) então dedos à obra e ao desabafo!
Preciso dizer que o tempo me ensinou muita coisa sobre a imprensa. As lições são muitas, mas a mais importante e relevante nos casos de tragédias, é esperar. Esperar até que as especulações se acalmem, a poeira do choque se abaixe, e as notícias comecem a fazer mais sentido.
Com o tempo, tudo faz mais sentido, se você conseguir manter a frieza de se distanciar das emoções que o noticiário quer instigar em você – o famoso inconsciente coletivo - para te prender aos números do IBOPE, às vendas de jornais e aos acessos de seus websites. No começo tudo é sensacional. No mau sentido, mas mesmo assim, sensacional. Pessoas são transformadas em monstros. Empresas são transformadas em instrumentos diabólicos que só servem para destruir a vida de todos. Partidos políticos são transformados em mecanismos de pura corrupção. Com o tempo você começa a ver que não é bem por aí. Ninguém nem nada se transforma em algo puramente ruim e negativo da noite para o dia.
Existem quatro assuntos que quero discutir no blog. News International e suas traquinagens, o ataque de Oslo, a fome na África e a morte de Amy Winehouse. Para não ficar muito cansativo (tanto para leitura quanto para escrever) vou fazer um de cada vez. O primeiro é sobre o ataque em Oslo.
Na sexta, quando as notícias estavam quentes, Regina26 (que aliás me surpreendeu por ter sido a única que comentou o que aconteceu) escreveu no Twitter
“Acabei de ver na Tv as imagens do atentado em Oslo. Será que algum dia isso vai parar? Por que matar, ao invés de sentar e conversar?”
Respondi que era um assunto complexo, mas que concordava que deveria sim ser tão simples quanto sentar e conversar. Minha concordância foi relativa ao fato de que eu sei que o mundo não é feito para tanta ingenuidade, mas ainda assim espelharia minha utopia, sobre a qual falei aqui. Mas como falei naquela época, Utopia é algo que sabemos que não é atingível. Na época, adorei a explicação de Mauro, comentando no mesmo post:
“- Infelizmente, não acho que isso vá acontecer porque a humanidade no final das contas é um bando de gente egoísta e que não está nem aí para com quem está fora da sua “turminha”. A gente evolui como animais sociais, mas isso normalmente implica viver em grupos pequenos. A gente se importa com a família e os amigos próximos, mas normalmente está pouco se lixando com quem está em outros países ou mora na cidade ao lado, afinal eles são só “estatísticas” ou mais ou menos “conceituais” para a gente. Tipo, se eu mal consigo imaginar alguém que mora no Kazaquistão, como é que vou sentir simpatia real por essa pessoa, comparada com, por exemplo, meu vizinho?”
Depois que Mauro acendeu a lampadinha na minha cabeça, o mundo e suas coisas com as quais não concordo passaram a fazer muito mais sentido. Desde idéias e discussões de amigos, da família, dos vizinhos, até – o que sob o nosso ponto de vista são – atrocidades que acontecem pelo mundo. E para passar a entender mais ainda essas atrocidades, basta se colocar do outro lado da moeda, a ver as coisas de um outro ângulo. Todos os “loucos” têm o seu pouquinho de sanidade também, as suas justificativas exageradas para ações que não são consideradas normais por nós, considerados normais.
Nesse caso específico, após ler alguns poucos artigos sobre o assunto e ouvir as notícias curtas dadas no rádio que toca na maioria música,percebi a similaridade com o caso da Escola do Rio. O mesmo caso que me fez desabafar sobre a Imprensa.
A similaridade é um indivíduo que em um surto entre realidade e fantasia, misturou seus pontos extremos com uma doença mental e acabou afetando pessoas inocentes em sua busca de uma vida melhor. Sim! Porque ele jura de pés juntos que fez o que necessário para uma Europa melhor, livre da invasão islâmica e imigrantes ilegais. Já ouviu essa história antes? Um certo senhor chamado Adolf Hitler, querendo limpar a Europa dos judeus e não-caucasianos? Pois então. É primeiro necessário entender que na cabeça dele, seus ideais são corretos.
Meu ponto aqui se dividem em dois:
- Influência da mídia de que você deve lutar pelos seus sonhos e pelo mundo que deseja
Três dos meus filmos favoritos são Matrix, V de Vendetta e Mais Estranho que Ficção. Ambos lidam com a idéia de que você deve sair da cadeira, e fazer algo pelo mundo que deseja ver. Se fôr criar uma revolução, e eliminar quem não concorde com os seus ideais, que assim seja.
Também adoro os ideais de Rage Against the Machine, com suas músicas revolucionárias que cantam coisas como:
So called facts are fraud – Os “fatos” são fraudes
They want us to allege and pledge – Eles querem que nos aleguemos e assim prometamos
And bow down to their God – E nos curvarmos diante de seu Deus
Lost the culture, the culture lost – Perder a cultura, a cultura perdida
Spun our minds and through time – Virou nossas cabeças e durante o tempo
Ignorance has taken over – Ignorância tomou seu lugar
Yo, we gotta take the power back! – Temos que tomar o poder de volta!
Bam! Here’s the plan – Bam! Aqui está o plano
Motherfuck Uncle Sam – Estados Unidos FDP
Step back, I know who I am – Dê um passo para trás, eu sei quem eu sou
Raise up your ear, I’ll drop the style and clear – Abra seus ovidos, Vou pingar algum estilo e limpidamente
It’s the beats and the lyrics they fear – É a batida e a letra da música que os amedronta
The rage is relentless – A fúria é implacável
We need a movement with a quickness – Precisamos de um movimento rápido
You are the witness of change – Somos as testemunhas da mudança
And to counteract – e para contra atacar
We gotta take the power back – Temos que tomar o poder de volta
Gosto também de Muse, Green Day, Legião Urbana, Paralamas, Titãs, Caetano, Gil e Tropicália. Claro, da época que falavam mais de governos do que de corações partidos.
Então não seria o certo começar uma revolução agora mesmo? Me juntar aos que pensam como eu e tomar o mundo de pessoas que não concordam com os meus ideais? Protestar não ajuda em quase nada quase sempre, e mudar o partido no poder só faz outras pessoas que se vêem cegas pelos próprios interesses controlar a maioria.
Então porque vivo essa vida hipócrita, que não me deixa lutar pelo meus sonhos, pelos meus ideais de uma maneira mais agressiva assim como escuto meus ídolos cantarem pra mim, me mostrarem em filmes e escreverem em livros?
Pode ser por pura preguiça, e pela ilusão de achar que uma andorinha não faz verão, mas acho que na verdade é mais pelo fato de que:
- Somente excessões têm a capacidade de matar a sangue frio, não importa qual motivação.
Não é mais do ser humano ter o instinto de ter que eliminar o lhe ameaça. Deixamos essa característica animal, lá trás no tempo dos homens da caverna. Essa necessidade de ter que matar para conquistar o que queremos é o que nos faz viver em sociedade, e termos a capacidade de conversar, de discutir, de tentar chegar um senso comum e mesmo se não chegarmos, de “concordar em discordar”, e seguir a vida em frente.
Claro existem suas excessões. Nossa evolução ainda não se completou. Ainda temos necessidade de comer, beber líquidos. Ainda temos de depilar a perna (aliás, a evolução já deveria ter dado conta do recado né, fala sério ) e temos a necessidade de dormir para suprimirmos a necessidade de descanso. Ainda somos animais, em muitos aspectos.
Mas assim como existem excessões da evolução para essas necessidades, existem excessões para aqueles que por um motivo ou por outro ainda têm essa característica em sua personalidade, em sua mente, em suas ações.
Na minha santa ignorância, os motivos que causariam tantas tragédias seriam:
1) Uma infância ou vida adulta conturbada
2) Doença mental (como esquizofrenia ou paranóia, por exemplo)
3) Necessidade (de sobrevivência, a questão de vida ou morte, auto-defesa, ou auto-subsistência)
Qualquer um dos três acaba explicando os casos isolados de violência contra outra(s) pessoa(s). O que explicou casos de matança no cinema em São Paulo, o caso da escola no Rio, atiradores nos Estados Unidos e provavelmente o que vai explicar o caso de Oslo é o ponto da doença mental.
O que explicaria casos do Nazismo, seria a combinação da mente doentia de Hitler, que encontrou em seus seguidores o motivo da sobrevivência. Os alemães tendo vindo da perda da 1a Guerra Mundial e se vendo ameaçados pelos judeus, seguiram Hitler em seus ideais, cegamente (mais ainda assim com suas exceções humanas, com pessoas que ofereceram abrigo a judeus e salvaram muitas vidas!).
Agora, a guerra motivada por Islamismo x Ocidente é um pouco diferente. Aí temos uma mistureba de motivos, e a sede do Ocidente de manter as guerras acontecendo por uma outra tendência que vem com o Homo Sapiens. A ganância e ambição. Os Estados Unidos e o Reino Unido ainda precisam do dinheiro que a guerra gera. A venda de armamentos ainda é um comércio muito grande para abrirem mão. O que é triste, mas na realidade o porque a Guerra não acaba nunca. E acaba gerando mais motivos de criação de terroristas que nascem em crescem em território de guerra e acreditando que devem ter uma vingança e retribuição, criando assim um círculo vicioso.
Existe uma saída?
Sim, imprensa PRECISA largar essa coisa que denominar pessoas de demoníacas, como isso explicasse o ocorrido e como se as escolhas fôssem delas de cometer esses atos horrendos. É preciso começar a aceitar doenças mentais como algo grave da condição humana. Oferecer triagem, tratamento e inclusão na sociedade.
Um ponto positivo é que parece que aprendemos sim com o Nazismo. Hoje já não é aceito como normal e não acredito que cresceria aos níveis que vimos no passado.
Ainda é necessário endereçar o problema da inclusão de imigrantes na Europa (escrevi que já era um problema em 2010, no blog da Denise), que é o que fundalmente tem ameaçado os nacionais e feito com que sintam medo do diferente e achem que mulçumanos e estrangeiros representam o mal e deve ser eliminado – a famosa direita fanática, que claro é a minoria, ainda que ameaçadora. E a culpa de quem é?
Bom temos governos que fazem uma bagunça de todo o processo de imigração, e de novo – olha só a surpresa – imprensa de baixo calão com manchetes sensacionalistas e exagero para negativizar estrangeiros, são a fórmula para desastre acontecendo no momento.
É preciso achar outras saídas ao invés de depender no dinheiro da Guerra para conseguir fazer seu país sair da pendura!
A única saída pessoal que achei por enquanto é seguir as palavras de Ghandi, que são as que mais me fazem sentido. “Seja a mudança que quer no mundo” . Tenho outros planos, mas enquanto meu traseiro não sai do sofá para agir, seriam somente conjecturas.
Por enquanto tento fazer a minha parte no que eu acho que é bom. Não fazendo o que eu acho que é errado. Eu acho que é errado confrontar outras pessoas de maneira agressiva e fanfarrônica (confesso que ainda estou mudando essa tendência, assunto pra outro post talvez?). Se um dia tiver filhos, ensinarei a eles meu ponto de vista e tentarei dar um lar estável e seguindo meus ideais. Quando tenho a oportunidade, espalho meus ideais por aí, pra quem quiser se juntar. Mas principalmente mudo meus ideais a todo tempo, quando acho que outros fazem mais sentido. Sou maleável, porque acho que todos deveriam ser maleáveis. É uma jornada conflitante e cheia de ficar em cima do muro por um tempo (às vezes por um longo tempo) – o que é mal visto nos dias de hoje, como se fôsse um defeito, infelizmente.
Mas é a mudança que eu gostaria de ver no mundo, um mundo mais tolerante, e com mais paciência.
Deixo o vídeo abaixo, para ilustrar a idéia, sem nenhuma palavra sequer necessária.
Sambaram comigo