Se lembre, se lembre, do 5 de Novembro

Estava aqui colocando a montanha de emails pra responder em ordem, quando me deparei tentando contar pra minha irmã o que eu fiz no final de semana. Ora ora, fui comemorar o 5 de Novembro!  E claro, a pergunta inevitável seguiu:  ”E o que seria o 5 de Novembro?”

Eu lembro ter explicado o que o 5 de Novembro significa aqui, mas acho que o post era da época do so-candy, que acabou voltando ao pó da internet. Então sempre bom explicar aqui de novo, e fica como referência pra quem se encontrar em Londres do mesmo jeito que eu há 10 anos atrás, não entendo o porque de tantos fogos de artíficios em pleno Novembro!

E quem melhor pra explicar do que a BBC? Tudo bem que ela não está em seus melhores momentos atualmente com acusações de que teria escondido o fato de que um de seus maiores apresentadores de TV Infantil dos anos 70 e 80 estivesse envolvido com pedofilia, e esse é assunto pra outro post, mas a BBC é a produtora de “Horrible Histories” (histórias horríveis), um programa de TV que conta fatos interessantes da história da Ingalterra e do mundo. É um programa voltado para crianças e adolescentes, mas que somos fãs aqui em casa. O programa utiliza o humor e a sátira para ensinar história, e eu acho que deveria ocupar espaço de horário nobre!  :-B

Então fica aqui a explicação do que aconteceu em 1605 com Guy Fawkes, são só dois minutos e muito melhor do que eu poderia ou teria tempo para contar!

(Se o vídeo não funcionar pra você, clique aqui)

E depois que isso aconteceu, começou-se a tradição de na noite de 5 de Novembro (e no final de semana anterior, se o 5 de Novembro cair em um dia de semana), de estourar fogos de artifício. Por estar frio e por que se o Parlamento tivesse explodido teria virado uma fogueira, pessoas e alguns shows de fogos, fazem grandes fogueiras, que em inglês é “bonfire”. Então para sempre, 5 de Novembro é conhecido como Bonfire Night, a noite das fogueiras. Não se sabe bem se por comemoração de que Guy falhou em seu plano, ou porque o plano existiu e foi uma forma de manter o protesto contra a família real*.

O plano de Guy Fawkes também foi a inspiração do filme V de Vendetta, um dos meus favoritos e que mencionei no blog durante a tragédia de Oslo e da escola do Rio de Janeiro.

Mas o que todo mundo sabe é  Poema Remember Remember:

Remember remember the fifth of November
Gunpowder, treason and plot.
I see no reason why gunpowder, treason
Should ever be forgot..

Se lembre, se lembre
De de 5 de Novembro,
Pólvora, traição e armação
Eu não vejo motivo porque
Pólvora e Traição
Deveria ser esquecido!

Famílias e amigos se unem para ver fogos em espaços descampados, e depois se reunem em festas em casa, fazendo a fogueira e cozinhando pratos típicos dessa época, clique aqui pra ver alguns (em inglês).

E foi isso que fizemos no final de semana! Nos mandamos pra Southampton na casa dos pais do Mr. W e assistimos o show de fogos de artifício no campo atrás da escola onde ele cursou primário, comemos leitão à puruca com feijão branco, alho poró e erva-doce, com bolo Buttenburg de sobremesa. A mãe do James normalmente faz o Bonfire Cake que se parece com esse aqui, mas esse ano não deu tempo de fazer  :-q

*Eu, como socialista mequetrefe, comemoro o fato de que planejaram destruir a família real que não tolerava católicos! :P O que você comemoraria se morasse na Inglaterra?

Feriado? Que feriado?

Uma coisa que o pessoal que não mora aqui sempre pergunta, é se “também é/foi/vai ser feriado por aí?” Infelizmente, a maioria das vezes, a resposta é não. Não, não tem feriado de Carnaval, não tem feriado de dia de Santo, não tem feriado de dia da Independência (por motivos óbvios né  :-D ) e por aí vai.

Hoje não é feriado e ontem não foi emendado, mas o feriado que temos no lugar não é chamado de dia do Trabalho, mas “Feriado do começo de Maio”, e é sempre a primeira segunda-feira do mês de Maio.

E quais feriados nós temos então? Bem, começa pelo fato que feriado aqui é meio móvel. Se cai em dia que não é sexta ou segunda-feira, eles fazem questão de mover pra próxima semana. Além disso, os feriados vão variar um pouco de país pra país. Às vezes o que é feriado aqui na Inglaterra, não é na Irlanda do Norte (onde eles não recebem por feriado, tem que tirar de férias!), ou na Escócia, e vice-versa. Então se você quiser saber direitinho antes de planejar viagem ou antes de reclamar que seu/ua amig/a não respondeu os emails, não entrou no twitter ou no messenger pra falar com você e deu uma sumida básica, olha o calendário oficial do Reino Unido aqui.

Feriado aqui é chamado de Bank Holiday - férias do Banco, literalmente – e seria o feriado financeiro, o dia que os funcionários do banco não vão trabalhar. Aqui a maioria das agências abrem de sábado, então talvez tenha alguma relação com esse fato (até os feriados que seriam Public Holidays - feriado público, que seriam feriados tradicionalmente e não porque o banco não abre, como Natal por exemplo – hoje em dia são chamados, erroneamente de Bank Holidays).

Mas em geral, os feriados da Inglaterra normalmente são:

Ano Novo: 1 de Janeiro (E se cai em final de semana, é transferido pra segunda-feira seguinte)

Sexta-feira Santa e Segunda-Feira de Páscoa (acompanha a sexta-feira santa do Brasil, mas adicione aí a Segunda-feira de Páscoa ao invés de ser só o Domingo)

Feriado da Primavera: Normalmente a última segunda-feira de Maio. – e normalmente o meu aniversário <:-P . Esse ano foi transferido pra primeira segunda-feira de Junho, já que o feriado do Jubileu de Diamante da Rainha “no poder” vai ser comemorado na terça-seguinte. E como bom britânicos que não concordam com a família real ainda estar sugando recursos financeiros, vamos nos mandar pra França esse ano  /:)

Feriado de Verão: Última segunda-feira de Agosto.

Natal e Boxing Day: Normalmente 25 e 26 de Dezembro, mas se um dos dois ou os dois dias caírem no final de semana, são empurrados pra próxima segunda-feira.

Então são só essas merrequinhas que temos de feriados. Sete dias por ano normalmente. Ano passado teve o casamento de Wills e Kate e esse ano tem o Jubileu da Beth, então tem mais uma lambujinha. Mas nem reclamo muito. Sei que os dias de trabalho são importantes para a economia e uma amiga me falou que no Brasil quase não se emenda mais, a não ser que você tire de férias, então não sei a quantas anda a “vida boa” na terra do arroz com feijão  :>

E por falar em trabalho, e dia do trabalho, fica aqui a minha contribuição, como toda socialista hipócrita e mequetrefe  X_X


Feita em 1895 pelo ilustrados  inglês Walter Crane, essa Guirlanda em comemoração ao dia do trabalho ainda é tão atual 117 depois!

Em destaque são os pontos que ele faz que eu acho mais importantes na socidade de hoje, que aliás anda tão pacata, tão aceitando tudo que lhe falam e lhe impõem, mas isso é assunto pra outro post.
Socialism means the most helpful and happy life for all: Socialismo significa a vida mais úitl e feliz para todos
A commonwealth when wealth is common: Uma nação quando a riqueza é comunitária
Art and Empolyment for all: Arte e emprego para todos
Hope in Work & Joy in Leisure: Esperança no Trabalho e Alegria no Lazer
Cooperation & Emolation, not competition: Cooperação e Concorrência, não competição.
Shorten Working Day & Lengthen Life: Dias de trabalho mais curtos, vida mais longa.
England should feed her own people: A Inglaterra deveria alimentar seu povo
The land for the people: A terra para o povo
Merrie England: Inglaterra Feliz
No people can be free while dependant for their bread: Ninguém pode ser livre enquanto dependente para conseguir seu pão.
The plogh is a better backbone than the factory: O trator é uma espinha melhor que a fábrica.
No child toilers: Não às crianças trabalhadoras
Production for use, not for profit: Produção para uso, não lucro
Solidarity For Work: Solidariedade para o trabalho
The cause of labour is the hope of the world: A causa do trabalho é a esperança do mundo.

Faz sentido não faz?

Feliz dia do Trabalho pra você trabalhor/a que tem dias de férias, hora extra paga, benefícios e um salário decente graças aos socialistas e sindicalistas de gerações passadas. Feliz Dia do Trabalho pra você que não está trabalhando, mas que sabe a importância do trabalho mais do que ninguém, espero que sua jornada até o próximo emprego seja curta e útil. Feliz dia do trabalho pra você que escolhe não trabalhar, que essa ecolha seja baseada na certeza de que seu serviço feito em casa ou na caridade te traz a paz, felicidade e segurança necessária para enfrentar uma jornada de liberdade psicológica, física e espiritual.

O tumulto de Londres: Perguntas e (minhas) respostas

Desculpem pelo assunto pesado de novo, escrevo hoje sobre o que aconteceu em Londres. Não tem como deixar entalado na garganta e sempre me ajuda a lidar com os sentimentos que vêm nessas horas…

Difícil achar uma tradução decente para a palavra riot. Riot aqui tem a conotação de arrastão, tumulto, revolta, tudo em uma palavra só. Em um dos artigos que li, na verdade eles diziam que nem riot foi, porque riot teria em si, uma definição de fundo politíco e argumentação, o que aqui não teve. Talvez tenha começado como uma riot, mas como terminou, ninguém sabe muito bem como colocar um nome. Vou chamar de tumulto, pra deixar mais fácil pra todo mundo, por agora.

Primeiro, a história de como aconteceu sob o meu ponto de vista, pra quem está no Brasil e ficou meio perdido com a bagunça que não foi bem explicada no jornal.

No dia 4 de Agosto (quinta-feira), um rapaz do Norte de Londres, do bairro de Tottenham foi morto por policiais. O que eu vi de notícias (assisto BBC News – notícias 24 horas – antes de dormir, pelas curtinhas do que está acontecendo pelo mundo) foi que um homem havia sido baleado pela polícia e estavam investigando. Na sexta, na hora do almoço – quando vemos as manchetes de novo – a notícia era de que ele havia atirado no policial, mas o IPCC (que é o órgão independente de investigação de ações da polícia) estava investigando o que realmente tinha acontecido.
No sábado, passei o dia fora. Na volta, quando paramos para jantar em um posto de serviços da estrada, vimos na televisão que estavam acontecendo alguns tumultos no bairro onde o rapaz foi morto. Carro de polícia pegando fogo, mas sem muitas informações sobre o que estava acontecendo. Chegamos em casa umas 2 horas depois, e o circo sensacionalista havia sido montado. Ninguém sabia muito bem o que estava acontecendo, como tinha começado e o que a polícia estava fazendo para contê-los. Resolvemos desligar a televisão, mas sei que ficaram a noite inteira reportando do local, colocando as imagens em loop, repetindo sempre as mesmas imagens de pessoas atirando pedras nos carros da polícia, de prédios pegando fogo.
No domingo, ligamos a TV pra ver o que estava acontecendo, mas até aí estava tudo meio tranqüilo. Até a hora de dormir de novo, quando vimos que haviam acontecido mais alguns tumultos. Na segunda-feira pela tarde o rádio começou a falar de tumultos acontecendo em maior escala em vários lugares de Londres. Ao assistirmos a TV de noite, vimos que estava fora de controle.
Na terça David Cameron chegou das suas férias, convocou a polícia, e o número de policiais nas ruas em Londres triplicou do dia para a noite, contando com carros-fortes e policiamento especial para tratar desse tipo de distúrbio. A note de terça foi tranqüila para Londres, mas Manchester, Birginham e Liverpool sofreram tumultos.
Não sei o número certo de pessoas que ficaram feridas no tumulto, mas confirmaram que 5 pessoas morreram.

E então vêm as perguntas. Que quero responder com as minhas respostas, meu ponto de vista, com meu conhecimento, com as horas que perdi lendo artigos de pessoas que não abusam de verborragia.

1) A polícia que matou o rapaz reagiu a ele atirando contra eles?
Não se sabe. Até agora a investigação confirmou que uma bala encravada no crachá do policial que foi envolvido no incidente não saiu da arma não-policial que foi encontrada na cena do crime. A investigação ainda está em andamento. Muitas perguntas precisam ser respondidas.
Pessoalmente, eu acho que os rapazes não atiraram. Que entraram em pânico e ameaçaram a polícia com a arma que tinham (se é que era deles mesmo) e a polícia entrou em pânico de volta e atirou para matar.

2) Os tumultos foram causados pela morte de Mark Duggan?
Não se sabe. As pessoas que estavam fazendo o tumulto era pouco concisas. Não tinham uma explicação dos motivos de estarem roubando lojas, colocando fogo em prédios, e fazendo bagunça. Cada um dava um motivo diferente, mas poucas vezes faziam sentido, e muitas vezes estavam embrigados por álcool.
Pessoalmente, digo que sim. Foi a única coisa que mudou do Sexta para Sábado. Depois que a poeira baixou um pouco, veio a notícia de que o tumulto começou no fim da vigília organizada pela família para protestar a morte do rapaz morto pela polícia. A vigília saiu de controle e algumas pessoas do bairro começaram o tumulto em uma revolta contra a polícia. Mas também acho que a televisão ao mostrar tudo ali, nú e crú e no loop repetitivo, instigou outros grupos do país a soltarem toda raiva e frustração contra o sistema. Ver que pessoas estavam roubando e destruindo saindo impunes, mostrou que se você quisesse, seria fácil ir pegar o seu pedacinho de mercadoria. A TV mostrou que polícia não ia te parar, se seus amigos iriam pra lá fazer tumulto também, que diferença iria fazer?

3) Porque a polícia não deu conta do recado?
Porque a polícia de rua aqui não é treinada para lidar com tumulto, e não só isso, ela não é autorizada a lidar com tumulto, eles não são armados, e normalmente só têm o bastão de borracha para conter violêncida em casos extremos e individuais de violência. Tem que ser a polícia treinada para tanto. Foi a primeira vez que aconteceram tumultos em vários lugares ao mesmo tempo. O número de policiais de tumulto (tipo Rota e Bope) foi pequeno para lidar com todos os tumultos. Foi um caso de como a TV estava mostrando onde os tumultos aconteceram, o pessoal causando o tumulto via na TV que poderia atacar outras áreas, e aproveitava a brecha.
Também teve o fator de que durante outros protestos durante o último ano a polícia foi muito criticada por usar força excessiva. Inquéritos foram armados, e a polícia ordenada a usar menos força da próxima vez. Quando chegou a hora do vamos ver, foi o que eles fizeram.

4) O Primeiro Ministro estava de férias, isso quer dizer que ele é folgado?
Não (mas jornais podem tentar te convencer do contrário). Não só o primeiro ministro como todos os políticos e a maioria da população tira férias no verão inglês. É quando as crianças saem de férias da escola, então é normal terem um tempo de descanso. O balanço entre a vida pessoal e trabalho aqui é protegido por leis européias, e isso é uma coisa importante na qualidade de vida de todos. O Primeiro Ministro é uma pessoa como qualquer outra, e para “funcionar” direito, precisa desligar de tempos em tempos. Ele e o Prefeito de Londres voltaram para Londres na terça-feira do tumulto. Todos os outros Membros do Parlamento (equivalente a deputados e senadores) foram convocados para uma audiência na quinta-feira depois do tumulto. Críticas são maiores pelo fato do Prefeito ter demorado mais para chegar, e quando todos estavam se unindo para limpar e resconstruir a cidade, eles não se uniram à população afetada.

O Primeiro Ministro não fez muita coisa na verdade voltando das férias. A polícia aqui é um órgão independente que tem liberdade de decidir ações conforme acharem necessário. David Cameron ter voltado foi literalmente, mais para inglês ver.

5) As pessoas que causaram o tumulto são pessoas simplesmente desocupadas, se aproveitando da falta de policiamento, ou crianças que os pais não tomam conta, querendo roubar coisas?
Aí está uma questão que cutuca a ferida de muita gente. Meu problema com essa questão é a palavra simplesmente. O que transpareceu durante esses acontecimentos é que nada é tão simples assim. E teve muito adulto na bagunça (até um brasileiro), e pessoas que queriam roubar comida, água e bebida acoólica.

5) Qual é a solução para isso não aconteça mais?
Não existe só uma solução. São várias. Que custam dinheiro, esforço, tempo. Sem entrar na questão histórica de partidos políticos, aqui está a minha lista de soluções, baseadanos ideais de Leleilândia:

  • Para os governantes:
    • Reforma do sistema de benefícios: Fazer com que o benefício seja merecido e não simplesmente oferecido. E benefícios merecidos seriam então melhores. As casas dadas pelo governo pra quem não pode pagar aluguel, seriam de melhor qualidade,ofereceriam condições mais humanas, e o serviço social apoiando o crescimento dos cidadões que necessitam dessa ajuda.

    • Reforma do sistema de ensino: Criar mais colégios de ensino técnico e aprendizes.
      Dar mais atenção para escolas que servem essas áreas:A maioria do pessoal envolvido (que claro teve suas exceções) vêm de sistemas educacionais precários. Saem da escola com o mínimo de alfabetizado (quando alfabetizados) e por isso também não conseguem se integrar à sociedade e procurar/conseguir emprego. O futuro para quem sai da escola nessas condições é escuro e sem muitas esperanças, o que traz frustração, raiva, inconformismo. Faça as contas.
      Criar e manter os centros jovens/infantis:Existem muitas histórias de centros juvenis e infantis de sucesso que ajudam aos menos privilegiados (e provilegiados também, pra quem quiser) com atividades pós-escola. É excelente para aqueles que não podem pagar para terem atividades extra-curriculares e precisam passar o tempo fazendo algo e se sentindo úteis.

    • Treinar a polícia: Não só para lidar melhor com tumultos, mas para evitá-los em primeiro lugar. Aprender as lições desses dias e rever as ações necessárias. Treiná-las para trabalharem com a comunidade problemática e não contra ela. Treinar oficiais que usam armas para saberem como lidar com o pânico e instintos de sobrevivência de mandeira melhor.

    • Reforma do sistema social: Oferecer condições melhores para trabalhadores do serviço social. Para identificarem e trabalharem com pais que não têm condições (morais, físicas e/ou ecônomicas) de criarem seus filhos. Cortar o mal pela raiz, identificando isso cedo na vida das famílias, seria mais fácil de direcionar crianças para um caminho mais correto, e evitar adolescentes e adultos que trariam problemas para a sociedade no futuro.

    • Impulsionar a criação de empregos: O corte de empregos, públicos ou não, é um grande fator nisso tudo, lembram de Gonzaguinha? “Um homem se humilha/ Se castram seu sonho/ Seu sonho é sua vida/ E vida é trabalho…/ E sem o seu trabalho
      O homem não tem honra/ E sem a sua honra/ Se morre, se mata…
      “. Na minha opinão a criação de empregos vem da criação de indústrias, de empregos públicos (feito de maneira enxuta e eficiente) de mais felixibilidade dos sindicados, de mais educação no país. De facilidade para pequenas empresas lidarem com os bancos.

    • Regularizar a propaganda e ânsia de ter que vender vender vender: Como eu falei, a maioria saiu roubando o que eles viam e queriam mas não têm condições (ou esperança de ter condições) de comprar. Pessoas “de bem” se aproveitaram e roubaram também. Pessoas com estudos e empregos, e sabiam o certo do errado. O que elas têm em comum com os muitos vieram de locais mais vulneráveis é querer e não poder comprar. É necessário colocar um freio nessa cultura onde ter é melhor como ser, como disse sabiamente, a Lolla.

  • Para nós, o povo:
    Esse é um ponto que dificilmente se vê por aí. Normalmente todo mundo é rapidinho em atacar a pedra, sem olhar para o próprio umbigo. Mas a sociedade e o povo tem culpa – e muita – no cartório. Então, o que podemos fazer para mudar o que está ao nosso redor e não deixar somente na mão do governo?

    • Não perpetuar a raiva direcionada aos que têm uma realidade diferente da nossa: Xingar, apelidar, falar (ou escrever) com tom de voz racista ou preconceituosa sobre os jovens, crianças e adultos envolvidos ou não nos tumultos, somente piora a situação que também é formada pelo fato de se sentirem excluídos do grupo de pessoas aunto-entituladas “boas”. Mais um fator para se juntarem aos grupos que entitulamos “maus” – alguém falou no programa de debate na televisão, com muita razão, quando não há proteção boa, proteção ruim toma conta. E assim gangs se formam que por sua vez acham o espaço para crescerem. E o ciclo assim vai continuando.

    • Pesquisar mais sobre política e exercer nosso papel cívico: Saber o que cada partido fez, faz e quer fazer é essencial para exercermos nossos direitos de cidadãos. Sair pesquisando leva tempo, mas as recompensas são saber que na hora de votar – e tem que votar! – estamos escolhendo o melhor realmente para o que queremos, e não só ouvindo o barulho que a imprensa e jornais fazem durante a eleição e escândalos. Não só ouvindo o que celebridades, seus amigos ou o debate resultou na televisão. A escolha é nossa e temos que ser responsáveis por ela.

    • Pesquisar mais sobre como é que o pessoal mais vulnerável que nós vive?: Saber as condições desse pessoal vai te fazer parar de julgá-los. É tão fácil do alto do nosso pedestal onde tivemos uma educação, pais moralmente corretos que nos ensinaram o certo do errado e nos suportaram nas horas de dor e de alegria, de amigos que nos aceitam, do quentinho da nossa casa, da segurança da polícia que nos protege ao invés de nos atacar, do emprego que paga as nossas contas e o que queremos comprar. %-( Tire seus dedos dos ouvidos,  e use seu tempo para antes de atacar pedras, pesquisar o que está causando o problema, e como você pode ajudar.

    • Perpetue idéias e ações que proporcionem o que você quer no mundo: Se você já tem uma idéia do que é certo e errado na sua concepção, perpetue-as. Aponte os seus amigos que não conseguem (ou não querem ver) ainda na direção correta. Pode haver uma discussão básica, assim como a que houve com a Cris no Twitter, a Lolla e a minha ex-chefe no Facebook, só tenha certeza de manter civilizado, colocando seus pontos através de fatos, mas não batendo de frente e deixando o emocional tomar conta. Nos três casos, chegamos em um acordo, aprendemos umas com as outras. Em um caso de uma menina que conheci uma vez em um casamento e se tornou amiga no Facebook, consegui fazer ela retirar o post dizendo que era “fácil os jovens conseguirem emprego, que só precisavam colocar um terno e aprender a falar sem gíria.” E nem precisei pedir para tirar, só com jeitinho disse que não era tão simples assim…

6) E por último, porque isso não muda?

    Em resumo é mais ou menos como um cartunista colocou no The Independent (nosso jornal favorito aqui):
    Os sintomas, as causas, a solução

Tem muito que envolve richas políticas, a impossibilidade de governos trabalhem juntos pelo bem da nação. Muito da sociedade que começa errado e é difícil de mudar assim rápido. São atitudes, culturas, crenças. Que são parte da personalidade dos indivíduos. Muito vem de novo do que o Mauro me falou, de que a raça humana é simplesmente muito grande para instigar o carinho e a preocupação pelo próximo em uma escala em que todos se ajudariam, na verdade.
Pode ser que esta lista mude conforme eu fôr lendo mais (ainda tenho muito mais artigos para ler!) e mais informações sobre o que aconteceu forem surgindo. Afinal, vocês sabem, sou a mestra em mudar e adaptar minhas opiniões.

Ia publicar a lista de artigos que li, mas seria enorme e não sei se vocês estariam interessados. Quem quiser pode me pedir e pode ser que eu publique aqui ou mande por e-mail.

Do povo para o povo – II

Com o tempo eu criei uma superstição (ou seria costume?) que quando algo evita eu falar ou escrever alguma coisa que eu queria, é porque no final das coisas a melhor coisa seria enterrar o assunto.

E ba-ta-ta, a segunda parte do post acabou se perdendo na perda de energia do micro e na falha técnica que deu no WordPress quando tentei escrever tudo de uma vez.

Então ao invés de ficar irritada com o fato que perdi o trabalhão de escrever tudo, vou continuar de onde parei de cabeça fresca e mudando o teor e a intensidade do texto.

Só pra lembrar onde parei no último post:

E já que a realidade seria muito zumbi se fôsse apática (o que eu também abomino. Apatia é uma coisa, ficar em cima do muro é outra e se retirar da briga é outra) vamos para a realidade que se confunde com a internet nos tempos de hoje.

A briga foi quente, como sempre, mas tenho que dizer que foram poucos dos meus amigos que realmente foram extermos vendo somente um lado da moeda, em uma tentativa de fazer os amigos que não concordavam com suas opções de votos a mudarem de idéia.

Não concordo com o discurso que política, religião e futebol não se discute. Tem que discutir sim! Sem discussão o mundo estaria stagnado. Prefiro que o mundo ande, pra frente ou pra trás, mas que haja movimento. Senão, qual é a razão de tudo isso? Melhor sentar e esperar a morte da bezerra.

Eu gosto quando tem discussões acirradas, e eu mesma já mudei de idéia e abri a mente pra várias coisas que não via antes através das redes sociais. Em quesito de crenças religiosas (ou a abdicação delas), políticas, sociais, enfim, a cada opinião dos outros eu acabo meio que ponderando, e guardando o que acho legal guardar e cuspindo o que não concordo. Às vezes meto o bedelho expondo o meu ponto-de-vista, mas na maioria das vezes não faz muita diferença, a pessoa ignora e segue o rumo.

O que me impressionou (mas não surpreendeu) nas eleições foi a quantidade de gente que perdeu mesmo as estribeiras, dando xiliques, bloqueando amigos, baixando o nível de como se referir a quem tinha uma opinião diferente da deles. Não cortei relação com ninguém e não acho que ninguém tenha cortado comigo e no fim as pessoas, com quem tenho contato, esfriaram os ânimos reconheceram que estavam exagerando, e baixaram a bola.

Eu acho que a diferença comigo é que eu demoro pra subir a bola, principalmente publicamente e na net. Mas fico positiva ao saber que as pessoas têm a capacidade de perceber que o extremismo não leva a nada, não importa a causa. E pra falar a verdade, se a pessoa acabar se provando extremista (no meu ponto de vista, diferente de militante) quem vai cortar os laços sou eu.

Resumindo o que eu achei da briga, vou deixar aqui o que postei no Facebook: e eu penso cá com meus botões. Quem odeia o PSDB e tudo o que ele representa, se não fôsse pelo FHC o Brasil ainda estaria na lama cortando três zeros à direita a cada 6 meses. Quem odeia o PT, senão fôsse pelo Lula os pobres ainda seriam miseráveis. O ideal seria juntar forças no que são bons em fazer pelo bem da nação e não essa guerra de braços pelo poder. Mas talvez seja ingenuidade e uma utopia.

E finalizando, se um dia eu votar nas eleições brasileiras novamente, vou fazer igualzinho quero fazer quando fôr votar nas eleições britânicas. Pesquisar MUITO as propostas de governo. O quanto teve de corrupção durante o governo, o que foi feito, o que foi desfeito, e pesar na balança.

Concordo que é muito complicado fazer isso com uma mídia interesseira e manipuladora, mas sei que é possível.

E só dessa forma terei qualquer direito de reclamar de promessas que não foram cumpridas e não me decepcionar quando o barco entornar pro lado errado, porque daí sim fiz parte da multidão que acabou escolhendo um dos lados, ciente do que esperava pela frente.

Do povo para o povo – I

Não ia fazer discurso sobre a eleição. Reconheço que é fácil apontar o dedo e se isentar de ter que tomar uma posição. Desde que estou cá não voto. Mas a coceira na mão é maior. Talvez seja aquela história de verás que um filho teu não foge à luta. E a mania de ter que botar pra fora o que eu penso é maior do que a atitude politicamente correta de ficar quieta.

Começa que não concordo que um país possa se chamar democrático quando obriga seus nacionais a votar. Ué, a escolha não deveria ser do povo se deve votar ou não? Já começa por aí.

Minha abstinência do voto não é por preguiça, nem por protesto. Não voto por puro egoísmo. Por medo de me descobrirem aqui e virem pedir que eu pague imposto do dinheirinho que faço – pelo qual pago imposto, e com gosto aqui – lá, o que não acho justo – pelo menos até que me provem que dinheiro arrecadado lá vai pra ser gasto com o povo e não pro bolso de político salafrário e cabidão de emprego. Então no fim, nunca transferi o título e sempre justifico e pago multa pra ficar em dia com a Justiça Eleitoral até o dia que me falarem que não pode mais.

Também não tenho peso na consciência de me abster porque apesar de me importar com o futuro do Brasil, e com a qualidade de vida que minha família e meus amigos que lá moram (ou têm vontade de voltar) eu acho que não está mais em minhas mãos dizer pra que lado o país deveria ir. Quem está lá ou quer voltar pra lá que está passando na pele o que é decido no plenário que têm que ter sua voz ouvida. Eu parei de acompanhar notícias e de acompanhar a história política do país há anos, então tenho consciência de que se votasse seria para aumentar a massa de votos pra quem quer que fôsse que meus pais estivessem votando, e como uma mulher de 30 anos, gostaria de tomar essa decisão por mim mesma.

Também preciso falar que eu acho que democracia não é meu sistema favorito de governo. Essa coisa de do povo-para o povo, no meu ponto de vista, não funciona. Porque o povo não vai chegar nunca num consenso do que é melhor para si, sempre vão haver divergências de opinião, porque opinião é isso mesmo. Gerada por anos e anos de vida, de experiências diferentes, de desejos divergentes, de ação e reação opostas. O que eu quero não é o mesmo que você, e diferente do vizinho.

Tem uma história interessante daqui, o primeiro-ministro Harold Wilson nos anos 60-70 lutou contra a vontade do povo e da mídia quando aboliu censura, legalizou o aborto, aboliu a lei que fazia homossexualismo ser ilegal, mudou as regras da imigração sem ligar muito pra opinião do povo e dos jornais sobre esses assuntos. Ele era um homem que conseguia enxergar o que a nação precisava e foi contra o que os jornais falavam. Sem o medo que predomina hoje de pesquisas de opinião, especialistas na TV e no rádio, na internet e nos jornais, e sem o medo de perder votos e de uma super-valorizada democracia ele enfrentou os quesitos de peito aberto e implementou o que achava certo. Resultado, Grâ Bretanha conseguiu enxergar que realmente as decisões eram o melhor para a Nação. Meio que quando a criança tá doente e não quer tomar remédio. Você às vezes tem que enfiar goela abaixo e fazer tomar remédio, depois do gosto amargo a criança sara, e com certeza nem vai perceber que tomou remédio um dia.

Por isso democracia não funciona. Não que povo  não saiba votar. Povo sabe votar direitinho. Mas o povo não sabe, e não tem como saber, o que é melhor para a Nação. Cada individual sabe o que melhor pra si. Mas como isso pode funcionar no coletivo, me pergunto cá pros meus botões?

A pessoa vota visando seus próprios interesses. Seja ele de acumular fortuna, medo de perder o que levou uma vida construindo ou herdou de outra maneira, vontade de ver um país mais eqüalitário, uma sociedade mais justa, e esses dois últimos são tão relativos… Seus motivos não importam mas são individuais, e como falei lá em cima, quando o assunto é individual, impossível achar o consenso que a maioria concorde, e novamente, quem disse que a maioria é correta?

E daí tem outra dúvida que vem com isso. Como saber quem seria o iluminado que saberia o que é melhor para a Nação?  Como saber que seria um Harold Wilson e não um Tony Blair que levou o país à uma Guerra desnecessária contra a vontade do povo?

E não me entendam errado. Sou completamente a favor da liberdade da expressão (contanto que não seja usada para a vinculação do ódio), da voz do povo protestando contra o que acha errado e comemorando o que acha certo. Imperialismo, militarismo, socialismo e comunismo já foram tentados e reprovados. Então saberia o que sugerir como caminho melhor. Mas assim como não concordo com capitalismo, não concordo com democracia. Ambas caem na categoria de uma discordância meio inútil, porque não sei como sugerir uma alternativa.

Talvez seja mesmo a utopia que nunca antigiremos, infelizmente.

Na minha utopia, vamos chamar de o país Leleilândia, o poder não corromperia as pessoas, um painel seria formado com as melhores cabeças do país, pessoas escolhidas por elas mesmas – pois elas se identificariam – que conseguiriam valorizar a importância da estabilidade econômica sem virar as costas para os mais vulneráveis e menos privilegiados. Conseguiriam exergar a necessidade da divisão, sem serem injustos e terem que afetar demais aqueles que nascem com mais dotes (intelectuais, físicos, econômicos). Esquerda e direita trabalhariam juntas pelo poder da nação como um todo. A partilha viria de cada individual por vontade própria e não imposta. Mas em Leleilândia só tem pessoas do bem e ninguém tem paranóia, medo ou insegurança. A única coisa que se discute é futebol. Religiões (e ateísmo) vivem de mãos dadas acreditando que cada um vive a religião que precisa para aprender/lidar com a vida da melhor forma que precise – e como religião não é distorcida em nome do poder, a mesma não precisa ir além dos ensinamentos reais a que foi proposta.
Não é necessário briga pelo poder porque os seres humanos lá não precisam de poder. Não têm a carga que a realidade aqui tem, de experiências de vida, influência de mídia, carga genética, histórias de guerra, fome, miséria, cruzadas, perseguições, crime e desigualdade social.
No país de Lelei-lândia todo mundo sabe ouvir, aceitar e ponderar a idéia do próximo, pesar prós e contras e decidir pelo caminho ideal. Quer saber, talvez nem precisasse de um Governo falando o que pode e o que não pode, o que deve e o que não deve, porque os Leleizenses saberiam o que fazer e o que seguir por conta própria.

Mas infelizmente Leleilândia só seria possível se eu resolvesse fumar uns breketi, e como eu nunca fumei nem cigarro de palha eu tento fazer sentido da realidade mesmo.

E já que a realidade seria muito zumbi se fôsse apática (o que eu também abomino. Apatia é uma coisa, ficar em cima do muro é outra e se retirar da briga é outra) vamos para a realidade que se confunde com a internet nos tempos de hoje.

A briga foi quente, e como sempre, mas tenho que dizer que foram poucos dos meus amigos que realmente foram extermos vendo somente um lado da moeda, em uma tentativa de fazer os amigos que não concordavam com suas opções de votos a mudarem de idéia.

Cotinua no próximo post